O cérebro não evoluiu para resistir a isso
EXISTE MESMO DEPENDÊNCIA DIGITAL? Como a ciência descobriu que o problema nunca foi apenas o celular. (Artigo da série: A Mente Sob a Lente da Ciência — Artigo 3)
AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL


Imagine um de nossos ancestrais caminhando por uma savana africana há cerca de cem mil anos.
De repente, algo se move entre os arbustos.
Pode ser apenas o vento.
Pode ser um antílope.
Ou pode ser um predador.
Naquele instante, prestar atenção não era apenas uma vantagem.
Era uma questão de sobrevivência.
Ao longo de centenas de milhares de anos, a seleção natural favoreceu cérebros extraordinariamente sensíveis a determinados tipos de estímulos: novidades, movimentos inesperados, sinais sociais, recompensas, ameaças e oportunidades.
Esse sistema nos trouxe até aqui.
Sem ele, provavelmente nossa espécie não teria sobrevivido.
Mas existe um detalhe importante.
Nosso cérebro mudou muito pouco desde então.
O mundo, por outro lado, mudou em uma velocidade impressionante.
Em menos de três décadas, passamos a carregar no bolso um dispositivo capaz de oferecer, a qualquer momento, novidades, reconhecimento social, entretenimento, informação e contato com milhares de pessoas.
Pela primeira vez na história da humanidade, um ambiente foi construído para disputar nossa atenção continuamente.
E foi exatamente isso que começou a interessar aos neurocientistas.
Quando o cérebro aprende sem pedir licença
Existe uma crença bastante difundida de que aprendemos apenas aquilo que decidimos aprender.
Na realidade, o cérebro aprende o tempo todo.
Muitas vezes, sem que percebamos.
Pense em uma criança aprendendo a andar de bicicleta.
Nas primeiras tentativas, cada movimento exige atenção. Ela precisa pensar onde colocar os pés, como equilibrar o corpo, quando frear e como virar o guidão.
Algum tempo depois, tudo isso acontece automaticamente.
O mesmo ocorre quando aprendemos a dirigir, a tocar um instrumento musical ou até a digitar uma senha.
A repetição transforma esforço em hábito.
Essa capacidade de automatizar comportamentos é uma das maiores conquistas evolutivas do cérebro.
Ela economiza energia mental e libera recursos para tarefas mais complexas.
Sem esse mecanismo, precisaríamos reaprender diariamente atividades simples, como escovar os dentes ou amarrar os sapatos.
Mas há um lado menos conhecido dessa história.
O cérebro não distingue, inicialmente, hábitos úteis de hábitos prejudiciais.
Ele fortalece aquilo que é repetido.
Quanto mais frequentemente um comportamento produz uma consequência percebida como positiva — aliviar o tédio, reduzir a ansiedade, proporcionar diversão ou sensação de pertencimento —, maior a probabilidade de esse comportamento voltar a ocorrer.
Esse é um princípio básico da aprendizagem.
E ele não surgiu com os smartphones.
A armadilha das pequenas recompensas
Durante muito tempo, acreditou-se que o sistema de recompensa do cérebro funcionava como um "centro do prazer".
Hoje sabemos que essa visão era simplificada demais.
Pesquisas de neurocientistas como Kent Berridge e Wolfram Schultz mostraram que a dopamina não é, propriamente, a molécula do prazer.
Ela participa, sobretudo, de processos relacionados à aprendizagem, à motivação e à antecipação de recompensas.
Em outras palavras, o cérebro não libera dopamina apenas quando recebe algo prazeroso.
Ele aprende a prestar atenção naquilo que pode ser recompensador.
Esse detalhe muda completamente a forma de entender nossa relação com a tecnologia.
Quando desbloqueamos o celular, raramente sabemos exatamente o que encontraremos.
Talvez uma mensagem importante.
Talvez nenhuma.
Talvez uma notícia interessante.
Talvez algo sem relevância.
É justamente essa incerteza que mantém nosso cérebro interessado.
Na psicologia da aprendizagem, esse fenômeno é conhecido como reforço intermitente.
Em vez de receber uma recompensa todas as vezes, recebemos recompensas imprevisíveis.
E comportamentos reforçados de forma imprevisível tendem a ser extraordinariamente resistentes à extinção.
Curiosamente, esse mesmo princípio já havia sido descrito décadas antes pelo psicólogo B. F. Skinner, ao estudar como diferentes padrões de recompensa influenciavam o comportamento animal.
Hoje, ele ajuda a compreender por que tantas pessoas desbloqueiam o celular repetidas vezes ao longo do dia, mesmo sem esperar conscientemente por algo específico.
Não é apenas curiosidade.
É aprendizagem.
O cérebro não foi enganado. Ele está fazendo exatamente o que aprendeu a fazer.
Existe uma narrativa bastante popular segundo a qual as plataformas digitais "enganam" o cérebro.
Essa afirmação contém parte da verdade, mas pode induzir a uma conclusão equivocada.
Nosso cérebro não é uma máquina defeituosa.
Ele está funcionando exatamente como evoluiu para funcionar.
Ao longo da história da espécie, prestar atenção a novidades aumentava nossas chances de sobreviver.
Descobrir uma nova fonte de alimento.
Perceber rapidamente uma ameaça.
Reconhecer mudanças no comportamento do grupo.
Tudo isso tinha enorme valor adaptativo.
As tecnologias digitais passaram a explorar esses mesmos mecanismos ancestrais.
Cada notificação sinaliza uma possível novidade.
Cada atualização oferece uma nova oportunidade de descoberta.
Cada rolagem da tela promete — sem garantir — que o próximo conteúdo poderá ser mais interessante do que o anterior.
É como se nossos circuitos de aprendizagem, extremamente eficientes para um mundo de escassez de informação, passassem a operar em um ambiente de abundância praticamente infinita.
O cérebro continua fazendo aquilo para o qual foi moldado.
O ambiente é que mudou radicalmente.
Mais do que uma disputa pela atenção
À medida que os estudos avançavam, tornou-se evidente que a questão não era apenas biológica.
Duas pessoas podiam usar exatamente a mesma plataforma, durante o mesmo período, e apresentar experiências completamente diferentes.
Algumas encerravam o uso sem dificuldade.
Outras sentiam um impulso quase automático para permanecer conectadas.
Se o cérebro humano era, em essência, o mesmo, por que essas diferenças aconteciam?
Essa pergunta levou os pesquisadores a olhar para além da neurobiologia.
Talvez fosse necessário compreender quem era aquela pessoa, quais emoções ela vivenciava, como interpretava suas experiências e de que maneira regulava seus próprios comportamentos.
Foi dessa integração entre neurociência, psicologia cognitiva e psicologia clínica que nasceu um dos modelos mais importantes da atualidade para explicar a dependência digital.
O nome parece complicado.
I-PACE.
Mas a ideia por trás dele é surpreendentemente simples.
E talvez seja a explicação mais elegante que a ciência já produziu para entender por que algumas pessoas conseguem fechar o aplicativo… enquanto outras sentem que o aplicativo nunca as deixa ir.
Leia também nossos outros artigos:
Como a ciência descobriu que o problema nunca foi só o celular?; Existe mesmo dependência digital?; Como recuperar sua capacidade de concentração? O que a ciência realmente recomenda; O uso excessivo do celular pode causar danos à nossa capacidade de aprendizagem? ; Dependência digital: quando o uso se torna necessidade e por que crianças e adolescentes estão mais vulneráveis; O uso digital não é neutro; O cérebro não foi feito para excesso; Dependência digital; O cérebro precisa de segurança para mudar; Por que o cérebro aprende mais com experiências emocionais intensas?; Por que o cérebro odeia incerteza?; Porque o cérebro teme a rejeição social?; Porque a segurança emocional regula o cérebro?.
Acesse mais em: www.dradanighorayeb.com.br
Dra. Dani Ghorayeb, Psicóloga e Psicoterapeuta, PhD e Mestre em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas UNICAMP com mais de 20 anos de experiência. Psicoterapia integrativa que une segurança emocional, Winnicott e TCC para promover mudanças profundas, sustentáveis e alinhadas ao seu tempo interno.
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