Como recuperar sua capacidade de concentração? O que a ciência realmente recomenda

Vivemos em uma época em que a distração deixou de ser um evento ocasional para se tornar parte da rotina. Muitas pessoas relatam que já não conseguem ler um capítulo de um livro sem interromper a leitura, estudar por mais de alguns minutos ou concluir uma tarefa sem verificar o celular diversas vezes.

AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL

Diante dessa realidade, uma pergunta tornou-se frequente tanto nos consultórios quanto nas universidades: é possível recuperar a capacidade de concentração?

A resposta da ciência é animadora: sim. Nosso cérebro mantém uma extraordinária capacidade de adaptação ao longo da vida. Entretanto, recuperar o foco exige compreender como ele funciona e criar condições para que os sistemas cerebrais responsáveis pela atenção possam operar de forma eficiente.

A atenção é um recurso biológico limitado

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, atenção não é apenas uma questão de força de vontade.

O psicólogo e economista Daniel Kahneman, em sua clássica teoria da atenção como recurso limitado, demonstrou que nossos recursos cognitivos são finitos. Sempre que direcionamos atenção para um estímulo, reduzimos a disponibilidade para outros.

Nas últimas décadas, a neurociência ampliou essa compreensão ao demonstrar que manter a concentração depende da interação entre diferentes redes cerebrais, especialmente o córtex pré-frontal, responsável pelo controle executivo, planejamento e inibição de distrações.

Em outras palavras, concentrar-se não significa apenas “olhar” para uma tarefa. Significa sustentar voluntariamente esse foco enquanto o cérebro resiste a inúmeros estímulos concorrentes.

A multitarefa é um mito

Uma das descobertas mais consistentes da psicologia cognitiva é que o cérebro humano praticamente não realiza multitarefa quando as atividades exigem processamento consciente.

Pesquisadores como David Meyer, Joshua Rubinstein e Jeffrey Evans demonstraram que aquilo que chamamos de multitarefa é, na verdade, uma alternância extremamente rápida entre tarefas diferentes.

Cada troca exige um processo conhecido como switching cost — o custo cognitivo da mudança de foco.

Esses pequenos custos se acumulam ao longo do dia, aumentando o tempo necessário para concluir atividades, reduzindo a qualidade do raciocínio e favorecendo erros.

É por isso que estudar enquanto se responde mensagens ou acompanhar uma reunião verificando redes sociais tende a comprometer o aprendizado.

O cérebro precisa de períodos prolongados de foco

O neurocientista Michael Posner, um dos maiores especialistas em atenção, descreve a concentração como um sistema treinável.

Quanto maior a frequência com que sustentamos a atenção em uma única tarefa, mais eficientes se tornam as redes neurais envolvidas nesse processo.

Da mesma forma que músculos se fortalecem com treinamento, circuitos cerebrais relacionados ao foco também se modificam pela experiência — um fenômeno conhecido como neuroplasticidade.

Essa capacidade foi amplamente demonstrada por pesquisadores como Michael Merzenich, pioneiro no estudo da plasticidade cerebral, e posteriormente consolidada por centenas de estudos utilizando técnicas modernas de neuroimagem.

O papel do tédio: um aliado inesperado

Talvez uma das descobertas mais interessantes da ciência contemporânea seja que o cérebro precisa de momentos de menor estimulação.

Quando estamos constantemente consumindo informações, reduzimos a oportunidade para que a chamada Rede de Modo Padrão (Default Mode Network) entre em funcionamento.

Pesquisadores como Marcus Raichle demonstraram que essa rede cerebral permanece altamente ativa durante momentos de descanso, introspecção e divagação.

Longe de representar “tempo perdido”, esses períodos parecem desempenhar funções essenciais para:

* consolidação da memória;

* integração de conhecimentos;

* criatividade;

* resolução de problemas complexos;

* organização das experiências emocionais.

Em outras palavras, permitir-se momentos sem estímulos digitais pode favorecer justamente os processos cognitivos que sustentam uma aprendizagem mais profunda.

Atenção também se treina

Diversas intervenções apresentam evidências consistentes para melhorar a capacidade de concentração.

1. Reduzir interrupções

A pesquisadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, mostrou que profissionais do conhecimento são interrompidos inúmeras vezes durante o trabalho e frequentemente demoram vários minutos para recuperar completamente o foco.

Silenciar notificações e criar períodos protegidos de trabalho reduz significativamente essa fragmentação.

2. Praticar atenção sustentada

Estabelecer blocos de estudo ou trabalho de 25 a 50 minutos permite que o cérebro permaneça tempo suficiente na mesma tarefa para aprofundar o processamento das informações.

Mais importante do que a duração exata é evitar mudanças frequentes de contexto.

3. Ler textos longos

O neurocientista cognitivo Stanislas Dehaene demonstra que a leitura profunda mobiliza amplas redes cerebrais relacionadas à linguagem, memória, inferência e raciocínio abstrato.

Ler livros e artigos extensos funciona como um verdadeiro treinamento para a atenção sustentada.

4. Dormir adequadamente

Durante o sono, especialmente nas fases de ondas lentas e sono REM, ocorre importante consolidação das memórias recém-adquiridas.

Pesquisadores como Matthew Walker demonstram que privação de sono reduz atenção, memória de trabalho, velocidade de processamento e capacidade de aprendizagem.

Dormir bem não é um luxo: é parte do processo de aprender.

5. Exercitar-se regularmente

Estudos conduzidos por John Ratey e diversos grupos de pesquisa mostram que a atividade física aumenta fatores neurotróficos, como o BDNF, favorecendo plasticidade cerebral, memória e funções executivas.

Caminhadas, corrida, musculação ou exercícios aeróbicos realizados regularmente beneficiam também o funcionamento cognitivo.

6. Praticar mindfulness

Meta-análises conduzidas por pesquisadores como Amishi Jha e Antoine Lutz indicam que treinamentos baseados em mindfulness podem melhorar atenção sustentada, controle executivo e regulação emocional, especialmente quando praticados de maneira consistente.

Embora não sejam uma solução mágica, constituem uma ferramenta útil dentro de um conjunto mais amplo de hábitos saudáveis.

A Psicologia Evolucionista ajuda a entender por que isso é tão difícil

Sob a perspectiva da Psicologia Evolucionista, nosso cérebro nunca precisou conviver com milhares de estímulos competitivos disponíveis vinte e quatro horas por dia.

Autores como David Buss, Leda Cosmides, John Tooby, Steven Pinker e Robin Dunbar defendem que muitos mecanismos psicológicos atuais surgiram para responder rapidamente a novidades potencialmente relevantes para sobrevivência e interação social.

A tecnologia moderna não criou esses mecanismos.

Ela passou a utilizá-los de maneira extremamente eficiente.

Isso significa que recuperar a concentração não depende apenas de motivação individual. Também exige reorganizar o ambiente para que nossos sistemas atencionais não sejam continuamente capturados.

Mais do que proteger a atenção, estamos protegendo nossa capacidade de pensar

Em uma sociedade que recompensa velocidade, respostas imediatas e consumo contínuo de informação, concentrar-se tornou-se uma habilidade rara.

Entretanto, continua sendo uma das competências mais importantes para aprender, tomar decisões, resolver problemas complexos e construir relações mais conscientes.

A boa notícia é que o cérebro permanece extraordinariamente adaptável.

Cada período em que escolhemos realizar apenas uma tarefa, desligamos as notificações, lemos um livro sem interrupções ou caminhamos sem consultar o celular representa um treino para os circuitos neurais responsáveis pelo foco.

Nossa capacidade de concentração não desapareceu.

Ela apenas precisa voltar a ser exercitada.

Referências selecionadas

* Buss, D. M. Evolutionary Psychology: The New Science of the Mind.

* Cosmides, L., & Tooby, J. Foundations of Evolutionary Psychology.

* Kahneman, D. Attention and Effort; Thinking, Fast and Slow.

* Posner, M. I., & Petersen, S. E. The Attention System of the Human Brain.

* Merzenich, M. Soft-Wired.

* Raichle, M. E. The Brain’s Default Mode Network.

* Dehaene, S. Reading in the Brain.

* Walker, M. Why We Sleep.

* Ratey, J. J. Spark: The Revolutionary New Science of Exercise and the Brain.

* Jha, A. P. Peak Mind.

* Mark, G. Attention Span: A Groundbreaking Way to Restore Balance, Happiness and Productivity.

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Dra. Dani Ghorayeb, Psicóloga e Psicoterapeuta, PhD e Mestre em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas UNICAMP com mais de 20 anos de experiência. Psicoterapia integrativa que une segurança emocional, Winnicott e TCC para promover mudanças profundas, sustentáveis e alinhadas ao seu tempo interno.

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