Relacionamentos de longo prazo: você quer vínculo — ou quer ser regulado emocionalmente?

Relacionamentos longos costumam falhar menos por falta de amor e mais por excesso de expectativa. Esperamos que o outro nos compreenda, nos acalme, nos valide, nos deseje, nos sustente emocionalmente — e faça tudo isso de forma contínua, intuitiva e sem falhas.

AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL

Mas talvez a pergunta que precise ser feita não seja “por que meu relacionamento esfriou?”, e sim:

que tipo de demanda emocional eu coloco dentro dele?

O que Esther Perel escancara — e nem sempre queremos ouvir Em Sexo no Cativeiro, Esther Perel propõe uma ideia que incomoda profundamente os ideais românticos contemporâneos:

desejo não sobrevive à fusão emocional.

Quando o parceiro passa a ser:

regulador da ansiedade,

fonte constante de validação,

responsável por restaurar nosso equilíbrio interno,

extensão do nosso mundo emocional,

o vínculo deixa de ser encontro entre dois sujeitos e passa a funcionar como sistema de suporte psíquico.

E sistemas de suporte não sustentam desejo.

Estabilidade emocional: o que realmente sustenta relações maduras

Existe uma diferença fundamental entre apoio emocional e dependência emocional — e ela se chama estabilidade emocional.

Estabilidade emocional não é ausência de emoção.

É a capacidade de:

sentir sem explodir,

frustrar-se sem retaliar,

ficar inseguro sem acusar,

tolerar silêncio sem vivê-lo como abandono,

lidar com desconforto sem transformar isso em crise relacional.

Pessoas emocionalmente estáveis não exigem que o outro as conserte.

Elas sabem voltar para si antes de exigir algo do vínculo.

Quando o relacionamento vira campo de descarga emocional

Muitos relacionamentos se organizam a partir de microdinâmicas desgastantes:

conversas que começam como pedidos e terminam como acusações;

desconfortos que viram testes de amor;

conflitos usados para obter proximidade;

crises recorrentes como forma de sentir conexão.

Nesses casos, o relacionamento não é espaço de crescimento — é campo de regulação emocional terceirizada.

E a pergunta incômoda surge:

o outro está ao meu lado — ou está exausto tentando me sustentar?

A pergunta que raramente fazemos

É mais fácil perguntar:

“Por que ele(a) não muda?”

“Por que não me entende?”

“Por que não faz mais por nós?”

Do que perguntar:

Como eu reajo quando algo me frustra?

O que faço com minhas emoções antes de levá-las ao outro?

Eu converso — ou despejo?

Eu dialogo — ou exijo?

Relacionamentos de longo prazo não exigem pessoas perfeitas.

Exigem pessoas emocionalmente responsáveis.

Amor adulto não promete conforto constante.

Amor adulto não promete ausência de conflito.

Não promete segurança absoluta.

Não promete acolhimento irrestrito.

Ele exige:

diferenciação,

tolerância à frustração,

capacidade de sustentar tensão sem romper,

e disposição para crescer — inclusive quando isso é desconfortável.

Como lembra Perel, o desejo precisa de espaço.

E espaço só existe quando cada um sustenta o próprio chão emocional.

Um convite (nada confortável) à reflexão

Talvez o ponto não seja salvar o relacionamento.

Talvez seja amadurecer dentro dele.

Então ficam algumas perguntas — sem resposta rápida:

O que em mim pesa no vínculo?

Que emoções eu terceirizo?

O quanto eu tolero frustração sem reagir?

Estou em relação para crescer — ou para ser cuidado?

Relacionamentos duradouros não se sustentam por promessa de felicidade.

Eles se sustentam quando duas pessoas conseguem se encontrar sem se usar como muleta emocional.

E isso, quase sempre, começa pelo trabalho interno que ninguém vê — mas que muda tudo.

Leia também:
Planejamento, metas e o início de 2026; Mindfulness na prática; Mindfulness; Mindfulness e autorregulação emocional;
Autorregulação Emocional: ninguém nasce sabendo, mas todo mundo pode aprender;
E a Terapia Hormonal? Uma Reflexão Moderna sobre o Climatério;
Menopositividade: uma nova visão sobre a menopausa;
Como vão os alicerces da sua casa?;
Quando o Estradiol Vai Embora: O Que Muda em Nós — e Como o Cérebro Feminino Se Reinventa; Menopausa e Cérebro: Uma Nova Dança Hormonal, Não um Fim de Linha

Acesse: www.dradanighorayeb.com.br