Mindfulness na prática
Como funciona, para quem funciona e o que a ciência mostra hoje.
AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL


No primeiro artigo, exploramos o que é mindfulness, suas origens e como a ciência o transformou em uma intervenção séria e amplamente estudada.
Agora, vamos falar sobre uso clínico, benefícios reais e por que essa prática tem ganhado espaço na saúde mental e física.
🧩 Mindfulness e saúde mental: onde ele faz diferença
1. Prevenção de recaída depressiva
Programas como MBCT, desenvolvidos por Zindel Segal, Mark Williams e John Teasdale, têm forte evidência para prevenir recaídas em pessoas com histórico de depressão recorrente. Em alguns casos, podem ser tão eficazes quanto a manutenção farmacológica.
2. Ansiedade e estresse
Mindfulness reduz ansiedade não por eliminar sintomas, mas por mudar a relação da pessoa com eles.
O paciente aprende a observar pensamentos ansiosos como eventos mentais, e não como verdades absolutas.
3. Trauma e regulação emocional
Pesquisas de Creswell, Lindsay e outros autores mostram que mindfulness atua como um “amortecedor” do estresse, diminuindo reatividade do sistema nervoso e aumentando resiliência.
4. Comportamentos compulsivos
Judson Brewer demonstrou como mindfulness pode interromper o ciclo do craving no tabagismo, na alimentação compulsiva e até no uso excessivo de tecnologia. A chave é reconhecer o desejo como fenômeno transitório e não como comando.
5. Dor crônica e uso de opioides
Eric Garland desenvolveu o MORE (Mindfulness-Oriented Recovery Enhancement), protocolo que combina mindfulness, reestruturação de recompensa e savoring. Estudos mostram redução significativa de dor e diminuição no uso de opioides — um impacto importante em saúde pública.
🫁 Mindfulness e saúde física: além do psicológico
A literatura dos últimos 10 anos aponta efeitos importantes:
• melhora da dor crônica (cervical, lombar, fibromialgia);
• redução de sintomas em oncologia (insônia, fadiga, dor);
• melhora do bem-estar em hipertensão e doenças cardiovasculares;
• modulação de marcadores inflamatórios e imunológicos.
Mindfulness não cura doenças.
Mas ajuda o corpo a sair do estado de ameaça, melhorando a adaptação fisiológica ao estresse crônico — o que, por sua vez, reduz impacto de sintomas.
🔍 Como isso aparece na prática clínica? Três cenas que dizem tudo
Cena 1 – Insônia por ruminação
A pessoa deita para dormir e a mente acende: preocupações, listas, culpas, comparações.
Com mindfulness, ela aprende a reconhecer: “Ah, isso é ruminação”.
Volta para o corpo: peso no colchão, som da respiração, temperatura nas mãos.
A mente continua pensando, mas ela deixa de lutar.
E o sono chega quando o sistema nervoso finalmente se regula.
Cena 2 – Dor cervical e cefaleia cervicogênica
Ao sentir uma pontada no trapézio, o paciente imediatamente contrai ombros, prende o ar e pensa “vai travar!”.
Mindfulness ajuda a enxergar esse ciclo no exato momento em que ele começa.
Com prática, a pessoa respira, solta tensão, ajusta postura — e a dor perde força.
Cena 3 – Craving (vontade urgente) por comida ou cigarro
Em vez de lutar contra o desejo (“não posso!”, “sou fraco!”), o praticante aprende a notar:
“Aqui está o craving. Aperto no peito, salivação, pensamento de urgência.”
Ao observar o desejo com curiosidade, algo surpreendente acontece:
ele perde o poder.
🧭 O que mindfulness NÃO é (e isso é importante)
• Não é esvaziar a mente.
• Não é relaxamento (embora possa relaxar).
• Não é controle absoluto das emoções.
• Não é um modo de “ficar zen”.
• Não é solução rápida.
• Não substitui psicoterapia ou medicação quando necessários.
Mindfulness é uma forma de mudar a relação com a experiência interna.
E isso, de forma consistente, muda o comportamento, a saúde mental e o corpo.
🎯 Para quem mindfulness funciona melhor?
Pesquisas sugerem melhor resposta em pessoas que:
• têm histórico de depressão recorrente;
• vivenciam ansiedade generalizada;
• sofrem de dor crônica;
• têm comportamentos compulsivos ou de evitação;
• apresentam alto nível de estresse.
Mas os melhores resultados aparecem quando mindfulness é combinado com psicoterapia, psiquiatria e/ou fisioterapia, dependendo do caso.
🌟 Mindfulness como convite
Mindfulness não é um truque, nem uma técnica de moda.
É um convite a olhar para dentro, a observar a experiência sem se afogar nela e a descobrir que, antes da reação automática, sempre existe um segundo — às vezes minúsculo — de liberdade.
E é nesse segundo que a mudança começa.
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