Quando o cérebro aprende a viver em alerta
A neurobiologia do trauma e a surpreendente capacidade de reprogramar o cérebro.
AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL


Algumas pessoas vivem com uma sensação constante de alerta.
Como se algo pudesse dar errado a qualquer momento.
Como se o corpo estivesse sempre preparado para reagir — mesmo quando não há ameaça real.
Às vezes isso se manifesta como ansiedade intensa.
Outras vezes como dificuldade de confiar nas pessoas, medo de se expor, explosões emocionais ou um cansaço profundo que parece não ter explicação.
Mas existe uma pergunta importante por trás desses comportamentos:
E se essas reações não forem defeitos de personalidade — mas adaptações do cérebro ao estresse e ao trauma?
Nas últimas décadas, pesquisadores como Bessel van der Kolk, Stephen Porges e Peter Levine ajudaram a transformar a forma como entendemos o trauma.
Hoje sabemos que experiências de ameaça, negligência emocional ou estresse crônico não afetam apenas nossas emoções — elas literalmente moldam o funcionamento do cérebro.
E a boa notícia é que o cérebro também possui uma extraordinária capacidade de mudança.
Essa capacidade se chama neuroplasticidade.
O cérebro sob ameaça: o que acontece quando vivemos experiências traumáticas?
Quando um evento é percebido como ameaçador, o cérebro ativa o sistema de sobrevivência.
Nesse momento, algumas estruturas cerebrais entram em ação de forma automática.
Amígdala: o detector de perigo
A amígdala funciona como um radar de ameaça.
Ela avalia rapidamente qualquer estímulo do ambiente e responde à pergunta:
Isso é perigoso?
Em pessoas que passaram por trauma ou estresse crônico, a amígdala pode se tornar hiperativa, interpretando sinais neutros como se fossem ameaças.
Isso pode gerar:
• hipervigilância
• ansiedade constante
• reações emocionais intensas
O cérebro, nesse caso, aprende a viver como se o perigo ainda estivesse presente.
Hipocampo: o guardião das memórias
O hipocampo ajuda a organizar memórias e a distinguir passado de presente.
Sob estresse intenso ou prolongado, essa estrutura pode sofrer alterações.
Isso pode levar a:
• lembranças fragmentadas do trauma
• dificuldade em contextualizar memórias
• sensação de reviver experiências passadas
Por isso, algumas pessoas dizem:
“É como se estivesse acontecendo de novo.”
Córtex pré-frontal: o regulador emocional
O córtex pré-frontal é responsável por funções como:
• reflexão
• planejamento
• regulação emocional
• controle de impulsos
Em situações traumáticas, sua atividade pode diminuir.
Isso significa que o cérebro fica mais dominado pelas respostas emocionais automáticas, com menos capacidade de reflexão e regulação.
Quando o sistema nervoso aprende a sobreviver
Segundo a teoria polivagal de Stephen Porges, o sistema nervoso possui diferentes estados de resposta à ameaça:
1️⃣ Luta ou fuga – ativação intensa
2️⃣ Congelamento ou colapso – imobilização
3️⃣ Engajamento social – sensação de segurança
Quando o trauma acontece repetidamente — especialmente na infância — o sistema nervoso pode ficar preso em estados de defesa.
Isso pode se manifestar como:
• ansiedade persistente
• dificuldade de confiar nas pessoas
• hipersensibilidade emocional
• sensação de vazio ou desconexão
O problema não é fraqueza emocional.
É um sistema nervoso que aprendeu a sobreviver em ambientes inseguros.
O corpo também guarda a memória do trauma
O pesquisador Bessel van der Kolk mostrou que o trauma não é apenas lembrado cognitivamente.
Ele também fica registrado em:
• padrões corporais
• respostas fisiológicas
• circuitos emocionais automáticos
Por isso, muitas vezes as pessoas dizem:
“Eu sei racionalmente que está tudo bem… mas meu corpo não acredita nisso.”
A boa notícia: o cérebro pode mudar
Durante muito tempo acreditou-se que o cérebro adulto era relativamente fixo.
Hoje sabemos que isso não é verdade.
Graças à neuroplasticidade, o cérebro pode reorganizar suas redes neurais ao longo da vida.
Isso acontece quando novas experiências são repetidas de forma consistente.
A psicoterapia é uma das ferramentas mais poderosas para promover essa mudança.
Como a psicoterapia pode reconfigurar o cérebro
Diversas abordagens terapêuticas atuam diretamente nos circuitos do medo e da regulação emocional.
Entre elas:
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Ajuda o paciente a identificar padrões automáticos de pensamento e comportamento.
Com novas interpretações e experiências, o cérebro aprende a responder de forma diferente a situações que antes ativavam ameaça.
Terapia de Exposição
Muito utilizada no tratamento de ansiedade e trauma.
Ela permite que o cérebro aprenda algo fundamental:
a situação temida não é mais perigosa.
Isso enfraquece gradualmente os circuitos de medo.
Dessensibilização sucessiva
Processo em que a exposição ocorre de forma gradual e segura.
O cérebro aprende a tolerar níveis crescentes de ativação emocional sem entrar em colapso.
Terapia Dialética Comportamental (DBT)
Desenvolvida por Marsha Linehan, essa abordagem trabalha habilidades como:
• regulação emocional
• tolerância ao estresse
• mindfulness
• relações interpessoais saudáveis
Essas habilidades fortalecem circuitos cerebrais ligados ao autocontrole e à estabilidade emocional.
Terapias somáticas e baseadas no corpo
Abordagens como as desenvolvidas por Peter Levine trabalham diretamente com as respostas fisiológicas do sistema nervoso.
O objetivo é permitir que o corpo complete respostas de defesa que ficaram interrompidas durante o trauma.
Quando entendemos o cérebro, surge a compaixão
Talvez uma das descobertas mais transformadoras da neurociência do trauma seja esta:
Muitos comportamentos que criticamos em nós mesmos —
como evitar situações, reagir de forma intensa ou sentir medo constante —
não são falhas de caráter.
São adaptações do cérebro que tentaram nos proteger.
Mas aquilo que foi aprendido também pode ser reaprendido.
Com segurança, repetição e novas experiências emocionais corretivas, o cérebro pode construir novos caminhos neurais.
E isso significa algo profundamente importante:
não estamos condenados a repetir os mesmos padrões para sempre.
O cérebro pode aprender novamente.
E, muitas vezes, a psicoterapia é exatamente o espaço onde esse novo aprendizado começa.
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