Quando cuidado e técnica se encontram

A potência de uma psicoterapia que integra Winnicott e Terapia Cognitivo-Comportamental.

AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL

Muitas pessoas chegam à psicoterapia com uma expectativa legítima: alívio do sofrimento, maior clareza interna e mudanças concretas na vida cotidiana. Ao mesmo tempo, desejam um espaço em que possam ser profundamente compreendidas, sem pressa, sem julgamentos e sem reducionismos.

Durante muito tempo, criou-se uma falsa dicotomia na clínica psicológica:

ou o paciente entende profundamente suas emoções e sua história — mas sente que pouco muda na prática —ou aprende técnicas para lidar com sintomas — mas sente que algo essencial de sua experiência emocional fica de fora.

A integração entre a teoria psicanalítica de Donald Winnicott e a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) surge justamente como uma resposta madura e sofisticada a essa falsa oposição.

Winnicott: o solo emocional onde a mudança pode acontecer

A contribuição de Winnicott para a psicoterapia vai muito além da interpretação clássica. Ele nos ensinou que ninguém muda verdadeiramente se não se sentir emocionalmente seguro.

Conceitos como holding, ambiente suficientemente bom, self verdadeiro e capacidade de brincar nos mostram que o sofrimento psíquico não nasce apenas de pensamentos distorcidos, mas muitas vezes de falhas precoces no ambiente emocional, que impediram a pessoa de se sentir real, validada e espontânea.

Na clínica winnicottiana, o terapeuta não é apenas alguém que interpreta, mas alguém que oferece uma experiência emocional corretiva, na qual o paciente pode existir de forma mais autêntica.

Esse tipo de vínculo cria algo fundamental: confiança interna.

E sem confiança, nenhuma técnica funciona de verdade.

TCC: transformar compreensão em ação concreta

A Terapia Cognitivo-Comportamental, por sua vez, oferece algo igualmente essencial: ferramentas claras para que o paciente perceba mudanças reais em seu dia a dia.

A TCC ajuda o paciente a:

• identificar padrões automáticos de pensamento,

• compreender como emoções e comportamentos se mantêm,

• desenvolver estratégias práticas para lidar com ansiedade, depressão, impulsividade e sofrimento emocional.

Autores contemporâneos da TCC, como Robert Leahy, ampliaram essa abordagem ao incluir a relação terapêutica e o funcionamento emocional como elementos centrais do processo de mudança — aproximando-se, inclusive, de temas caros à clínica relacional.

Assim, a TCC deixa de ser apenas uma terapia “de técnicas” e passa a ser uma psicoterapia que promove autonomia emocional, sem perder o foco em resultados.

Por que integrar essas duas abordagens?

Quando a base winnicottiana sustenta o processo terapêutico e a TCC organiza o caminho da mudança, o paciente não recebe apenas interpretações — ele experiencia transformações.

Essa integração permite que:

• o paciente se sinta compreendido em profundidade,

• ao mesmo tempo em que aprende como lidar com seus sintomas,

• desenvolvendo recursos internos que permanecem mesmo após o fim da terapia.

O cuidado emocional cria o chão.

As estratégias cognitivas constroem o caminho.

Resultados que fazem sentido emocionalmente

Uma psicoterapia integrativa não apressa processos nem promete soluções mágicas.

Ela respeita o tempo emocional do paciente, sem abrir mão da clareza e da direção terapêutica.

O paciente passa a perceber:

• maior regulação emocional,

• redução de sintomas,

• aumento da capacidade de escolha,

• relações mais autênticas,

• e uma sensação crescente de coerência interna.

Não se trata apenas de “entender por que sofro”, mas de aprender como viver melhor com o que sinto.

Um convite ao processo

Integrar Winnicott e TCC é reconhecer que ser cuidado e aprender a cuidar de si não são processos opostos — são complementares.

Nos próximos artigos desta série, aprofundaremos:

• como essa integração funciona na prática clínica,

• e de que forma ela favorece mudanças profundas e sustentáveis ao longo do tempo.

A psicoterapia pode — e deve — ser um espaço de acolhimento, mas também de transformação real.

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