Como a ciência descobriu que o problema nunca foi apenas o celular.
Existe mesmo da dependência digital? (Série: A Mente Sob a Lente da Ciência - Artigo 2)
AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL


Capítulo 2 — A psicóloga que fez uma pergunta incômoda
Hoje parece quase óbvio imaginar que alguém possa desenvolver uma relação problemática com a tecnologia.
Mas, no início da década de 1990, essa ideia soava estranha.
Naquela época, a internet ainda engatinhava. Os smartphones não existiam. As redes sociais que hoje ocupam parte significativa da nossa rotina sequer haviam sido criadas. Conectar-se à internet exigia um computador, uma linha telefônica e a paciência de esperar o som característico dos antigos modems anunciar que a conexão finalmente havia sido estabelecida.
Era um mundo muito diferente do atual.
Foi nesse cenário que uma jovem psicóloga norte-americana começou a perceber algo que não se encaixava nas explicações disponíveis.
Em seu consultório, alguns pacientes relatavam passar horas conectados. Perdiam prazos, negligenciavam relacionamentos, dormiam cada vez menos e, apesar de reconhecerem os prejuízos, pareciam incapazes de reduzir o tempo de uso.
O que mais chamava atenção, porém, não era o número de horas.
Era a perda de controle.
Essas pessoas descreviam uma experiência curiosa. Muitas ligavam o computador com um objetivo específico — responder um e-mail, procurar uma informação ou participar de um fórum de discussão. Quando percebiam, várias horas haviam passado.
A descrição lembra bastante aquilo que hoje ouvimos sobre smartphones e redes sociais.
Na época, entretanto, não existia uma linguagem para explicar esse fenômeno.
A psicóloga chamava-se Kimberly Young.
Em vez de concluir que seus pacientes eram apenas desorganizados ou indisciplinados, ela fez uma pergunta que muitos pesquisadores consideraram ousada:
Seria possível desenvolver uma dependência de um comportamento, e não de uma substância?
Hoje essa pergunta parece natural.
Naquele momento, era quase uma provocação.
Quando uma hipótese desafia o consenso
Durante boa parte do século XX, a palavra "dependência" esteve fortemente associada ao uso de substâncias como álcool, nicotina e outras drogas.
Essas condições apresentavam características relativamente bem compreendidas: tolerância, abstinência, perda de controle e manutenção do comportamento apesar dos prejuízos.
Mas a internet?
Como algo que não era ingerido, inalado ou injetado poderia provocar um padrão semelhante?
Muitos especialistas acreditavam que isso simplesmente não fazia sentido.
Outros argumentavam que o problema não estava na internet, mas em transtornos já existentes. Talvez pessoas deprimidas buscassem refúgio no ambiente virtual. Talvez indivíduos ansiosos encontrassem ali uma forma temporária de aliviar o desconforto. Nesse caso, a tecnologia seria apenas um cenário onde outras dificuldades se manifestavam.
Essa crítica era importante.
E, em parte, ela estava correta.
A boa ciência raramente avança ignorando as objeções. Ela progride justamente porque as leva a sério.
Kimberly Young também sabia disso.
Por isso, em vez de tentar convencer a comunidade científica apenas com opiniões, ela começou a reunir dados de forma sistemática.
Em 1998, publicou um dos primeiros estudos propondo critérios para identificar aquilo que chamou de Internet Addiction.
Seu trabalho descrevia pessoas que apresentavam características surpreendentemente semelhantes às observadas em outras formas de dependência: dificuldade de interromper o comportamento, preocupação constante com a atividade, uso crescente ao longo do tempo e continuidade apesar das consequências negativas.
O estudo despertou enorme interesse.
Mas também recebeu críticas intensas.
E isso foi saudável.
Porque obrigou toda uma área de pesquisa a responder uma pergunta fundamental:
Estamos diante de uma nova forma de dependência ou apenas observando um sintoma de outros transtornos?
A importância de uma boa dúvida
Quando olhamos para trás, é tentador imaginar que a ciência caminhou em linha reta.
Não caminhou.
Durante muitos anos, diferentes pesquisadores chegaram a conclusões diferentes.
Alguns estudos encontravam fortes semelhanças entre o uso compulsivo da internet e outras dependências.
Outros concluíam que as evidências ainda eram insuficientes.
Essa aparente confusão não representava um fracasso da ciência.
Representava exatamente o contrário.
A ciência amadurece quando resiste à tentação de aceitar respostas rápidas.
Em vez de decidir prematuramente que a dependência digital existia — ou que não existia —, pesquisadores passaram a investigar uma questão ainda mais interessante:
O que acontece no cérebro quando um comportamento deixa de ser uma escolha deliberada e passa a ocorrer quase automaticamente?
Responder a essa pergunta exigiria novas ferramentas.
Já não bastavam entrevistas ou questionários.
Seria preciso observar o cérebro em funcionamento.
E foi justamente quando a neurociência entrou nessa história que o debate começou a mudar de patamar.
Uma mudança de perspectiva
Até aquele momento, o foco das pesquisas estava principalmente no comportamento observável: quantas horas a pessoa permanecia conectada, quais atividades realizava na internet e quais prejuízos relatava.
A partir dos anos 2000, uma nova pergunta ganhou força:
Se o comportamento é tão difícil de interromper, será que o cérebro dessas pessoas funciona de maneira diferente quando entra em contato com determinados estímulos digitais?
Era uma pergunta ambiciosa.
E as respostas começariam a surgir com o avanço das técnicas de neuroimagem, capazes de observar, ainda que de forma indireta, quais regiões cerebrais se tornavam mais ativas durante diferentes tarefas.
O que os pesquisadores encontraram mudaria profundamente a maneira de compreender a relação entre tecnologia e comportamento humano.
Mas essa já é a próxima parte da história.
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Dra. Dani Ghorayeb, Psicóloga e Psicoterapeuta, PhD e Mestre em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas UNICAMP com mais de 20 anos de experiência. Psicoterapia integrativa que une segurança emocional, Winnicott e TCC para promover mudanças profundas, sustentáveis e alinhadas ao seu tempo interno.
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