O modelo que mudou a pergunta

Como a ciência descobriu que o problema nunca foi apenas o celular. EXISTE MESMO DEPENDÊNCIA DIGITAL? A Mente Sob a Lente da Ciência — Capítulo 4

AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL

Imagine duas pessoas.

As duas têm a mesma idade.

Usam o mesmo smartphone.

Passam aproximadamente o mesmo tempo nas redes sociais.

Recebem as mesmas notificações.

No entanto, existe uma diferença importante.

Uma consegue interromper o uso quando decide.

A outra sente que sempre permanece "só mais cinco minutos".

Se o ambiente digital é praticamente o mesmo, por que o comportamento é tão diferente?

Durante muitos anos, essa pergunta permaneceu sem uma resposta satisfatória.

Alguns pesquisadores enfatizavam a personalidade.

Outros destacavam a ansiedade.

Havia quem atribuísse o problema exclusivamente aos algoritmos das plataformas.

Outros defendiam que tudo se resumia ao autocontrole.

Cada explicação capturava uma parte do fenômeno.

Mas nenhuma conseguia explicá-lo por inteiro.

Foi nesse contexto que o psicólogo alemão Matthias Brand e sua equipe propuseram um modelo que mudou profundamente a forma de compreender as dependências comportamentais.

Em vez de procurar uma única causa, eles fizeram uma pergunta muito mais próxima da realidade:

E se o comportamento compulsivo surgir da interação entre vários fatores que se influenciam continuamente?

Essa ideia deu origem ao modelo I-PACE, sigla para Interaction of Person, Affect, Cognition and Execution.

O nome parece técnico.

A lógica é surpreendentemente intuitiva.

O primeiro elemento: a pessoa

Nenhum cérebro começa uma história do zero.

Cada indivíduo chega ao ambiente digital trazendo consigo uma combinação única de características biológicas, psicológicas e sociais.

Algumas pessoas são naturalmente mais impulsivas.

Outras apresentam maior sensibilidade à rejeição.

Há quem conviva com ansiedade desde a infância.

Outros enfrentam episódios depressivos, TDAH, dificuldades para regular emoções ou uma autoestima constantemente ameaçada.

Essas características não determinam o futuro.

Mas influenciam a forma como cada pessoa reage às experiências do cotidiano.

É como se todos nós começássemos uma corrida em pontos diferentes da pista.

O ambiente será o mesmo.

A experiência, não.

Essa foi uma das primeiras grandes contribuições do modelo I-PACE: abandonar a ideia de que existe um "perfil de dependente digital". Não existe um único tipo de pessoa vulnerável. Existem diferentes trajetórias que podem convergir para um mesmo comportamento.

O segundo elemento: as emoções

Agora imagine alguém que terminou um dia particularmente difícil.

Recebeu críticas no trabalho.

Discutiu com o parceiro.

Sentiu-se sozinho.

Ao chegar em casa, pega o celular.

Durante alguns minutos, a ansiedade diminui.

As preocupações parecem ficar mais distantes.

O cérebro registra essa experiência.

Sem que a pessoa perceba, uma associação começa a ser construída:

"Quando me sinto mal, isso ajuda."

Essa aprendizagem é profundamente humana.

Todos nós buscamos maneiras de aliviar o sofrimento.

Algumas pessoas caminham.

Outras conversam com amigos.

Algumas cozinham.

Outras leem.

O problema surge quando uma única estratégia passa a ocupar espaço excessivo e se transforma na principal forma de lidar com emoções difíceis.

Nesse momento, o celular deixa de ser apenas um instrumento de comunicação.

Ele passa a exercer uma função psicológica.

O terceiro elemento: aquilo que esperamos encontrar

Existe um detalhe fascinante sobre o comportamento humano.

Nós não reagimos apenas ao que acontece.

Reagimos também ao que acreditamos que vai acontecer.

Se alguém acredita que abrir uma rede social diminuirá sua solidão, aumentará a chance de procurá-la sempre que se sentir sozinho.

Se acredita que assistir a vídeos aliviará o estresse, essa expectativa passa a orientar futuras escolhas.

Com o tempo, essas crenças tornam-se quase invisíveis.

Elas deixam de ser pensamentos conscientes.

Transformam-se em atalhos mentais.

E cada vez que o comportamento produz o efeito esperado — ainda que apenas por alguns minutos — essas expectativas se fortalecem.

O quarto elemento: quando o hábito assume o comando

Talvez esta seja a parte mais importante de todo o modelo.

No início, abrir um aplicativo é uma decisão.

Algum tempo depois, pode deixar de ser.

Pense em alguém que aprendeu a dirigir.

Nos primeiros dias, cada movimento exige enorme concentração.

Anos mais tarde, é possível chegar ao destino sem lembrar conscientemente de boa parte do percurso.

O cérebro automatizou uma sequência de ações.

Com os hábitos digitais acontece algo semelhante.

A pessoa desbloqueia o celular enquanto espera o elevador.

Enquanto conversa.

Enquanto assiste televisão.

Enquanto responde um e-mail.

Muitas vezes, percebe que abriu um aplicativo sem sequer lembrar por quê.

Esse é um dos sinais mais característicos da automatização.

O comportamento deixa de depender de uma decisão deliberada.

Passa a ser iniciado quase automaticamente por pistas do ambiente: uma notificação, um momento de espera, um breve desconforto emocional ou simplesmente o aparelho ao alcance das mãos.

Um modelo profundamente humano

Talvez a maior beleza do I-PACE esteja no fato de que ele não procura culpados.

Ele não culpa o cérebro.

Não culpa a tecnologia.

Não culpa a personalidade.

Ele mostra que comportamentos complexos raramente têm uma única origem.

Somos resultado da interação contínua entre nossa história de vida, nossas emoções, nossas expectativas, nossos hábitos e o ambiente em que vivemos.

Essa visão representa uma mudança importante em relação às explicações simplistas que dominavam o debate público.

Perguntar apenas se o celular faz mal é como perguntar se a comida faz mal.

Depende de quem somos.

Depende de como usamos.

Depende da função que aquele comportamento exerce em nossa vida.

Essa é, talvez, a principal lição do modelo I-PACE.

Uma consequência clínica importante

Quando compreendemos essa lógica, também muda a forma de ajudar quem sofre.

A pergunta deixa de ser:

"Como faço essa pessoa usar menos o celular?"

E passa a ser:

"O que o celular está fazendo por ela que ainda não encontramos outra forma de oferecer?"

Essa mudança parece pequena.

Na prática clínica, ela transforma tudo.

Porque desloca o foco do sintoma para a função do comportamento.

E, quando entendemos a função, aumentamos muito a chance de construir intervenções mais eficazes e mais respeitosas.

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Dra. Dani Ghorayeb, Psicóloga e Psicoterapeuta, PhD e Mestre em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas UNICAMP com mais de 20 anos de experiência. Psicoterapia integrativa que une segurança emocional, Winnicott e TCC para promover mudanças profundas, sustentáveis e alinhadas ao seu tempo interno.

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