Porque uma coisa só pode começar a parecer insuficiente.
Quando o tédio se tornou insuportável? Parte 2.
AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL


Assistir a uma série enquanto verificamos o celular.
Comer vendo vídeos.
Caminhar ouvindo alguma coisa.
Trabalhar alternando continuamente entre tarefas, mensagens e notificações.
Para muitas pessoas, realizar apenas uma atividade por vez começa a parecer pouco estimulante.
Por quê?
Na primeira parte deste artigo discutimos um paradoxo da vida digital: tentamos combater o tédio procurando novos estímulos, mas a troca contínua entre conteúdos pode produzir menor envolvimento e, em determinadas condições, ainda mais tédio.
Agora precisamos compreender outro aspecto dessa relação:
o que acontece quando passamos a esperar níveis cada vez maiores de estimulação para nos sentirmos envolvidos?
Quando uma coisa só parece não ser suficiente
Katy Tam e Michael Inzlicht propõem que uma das maneiras pelas quais as mídias digitais podem contribuir para o tédio é aumentando nosso nível desejado de engajamento.
A hipótese merece cuidado.
Não significa que nosso cérebro tenha sido "estragado" pela tecnologia.
Também não significa simplesmente que estejamos "viciados em dopamina", explicação extremamente popular nas redes sociais, mas insuficiente para descrever o fenômeno.
O processo psicológico parece ser mais complexo.
Vivemos em um ambiente no qual existe quase sempre uma alternativa potencialmente mais estimulante ao alcance da mão.
Uma página de um livro compete com vídeos.
Uma conversa compete com mensagens.
Uma aula compete com redes sociais.
Um filme compete com outro conteúdo disponível instantaneamente.
Até o descanso compete com entretenimento.
Nesse contexto, aquilo que estamos fazendo precisa disputar continuamente nossa atenção com aquilo que poderíamos estar fazendo.
Sempre poderia haver alguma coisa mais interessante
Essa percepção das alternativas disponíveis envolve aquilo que a psicologia econômica e as teorias motivacionais chamam de custo de oportunidade.
Escolher uma atividade significa deixar temporariamente de fazer outras.
A diferença é que, antes do smartphone, muitas dessas alternativas não estavam permanentemente visíveis e acessíveis.
Hoje estão literalmente em nossas mãos.
Enquanto lemos um texto, sabemos que poderíamos verificar mensagens.
Enquanto vemos um filme, sabemos que existem milhares de outros.
Enquanto conversamos com alguém, outras interações continuam acontecendo.
Tam e Inzlicht propõem que essa percepção constante das alternativas pode aumentar o custo subjetivo de permanecer na experiência atual.
A pergunta deixa de ser apenas:
"Isto é interessante?"
E pode transformar-se em:
"Será que existe alguma coisa mais interessante que eu poderia estar fazendo agora?"
Tentamos combater o tédio com aquilo que pode alimentá-lo
Uma revisão sistemática e metanálise publicada por Anne-Linda Camerini, Susanna Morlino e Laura Marciano analisou 59 estudos sobre tédio e uso de mídias digitais.
Os pesquisadores encontraram uma associação positiva entre tédio e uso digital.
Mas encontraram algo ainda mais relevante: a associação foi substancialmente maior quando se tratava de uso problemático das mídias digitais do que quando se considerava simplesmente a quantidade geral de uso.
Esse resultado é importante porque desloca a discussão.
Talvez não seja suficiente perguntar:
"Quantas horas você passa no celular?"
Precisamos também perguntar:
"Como você utiliza o celular?"
Você escolhe quando utilizá-lo?
Consegue interromper?
Pega o aparelho automaticamente diante de qualquer desconforto?
Precisa verificar repetidamente se existe algo novo?
Consegue permanecer em outras atividades sem dividir constantemente sua atenção?
Cuidado com a causalidade
Existe uma precaução científica fundamental.
A maior parte dos estudos incluídos nessa metanálise era transversal.
Isso significa que não podemos concluir simplesmente que o celular causa tédio.
A relação provavelmente é mais complexa.
Pessoas que experimentam mais tédio podem procurar com maior frequência as mídias digitais.
Ao mesmo tempo, determinadas maneiras de utilizá-las podem fragmentar a atenção, diminuir a imersão e produzir novamente uma experiência de tédio.
É possível, portanto, que exista um processo de retroalimentação.
Talvez tenhamos desaprendido a permanecer
Durante grande parte da história humana, períodos de baixa estimulação eram inevitáveis.
Esperávamos.
Observávamos.
Pensávamos.
Divagávamos.
Às vezes simplesmente ficávamos entediados.
Hoje temos uma possibilidade historicamente incomum: eliminar quase instantaneamente muitos desses intervalos.
Ainda não conhecemos todas as consequências dessa transformação.
Seria cientificamente precipitado afirmar que os smartphones estão destruindo nossa atenção ou produzindo algum tipo de dano cerebral generalizado.
Mas as evidências disponíveis permitem formular uma pergunta importante:
quando eliminamos sistematicamente todos os momentos de baixa estimulação, diminuímos também as oportunidades de aprender a tolerá-los?
Recuperar autonomia não significa abandonar a tecnologia
Talvez o objetivo não seja simplesmente utilizar menos o celular.
Pode ser recuperar a capacidade de escolher quando utilizá-lo e quando permanecer.
Terminar um vídeo sem procurar outro.
Ler algumas páginas antes de verificar mensagens.
Esperar cinco minutos.
Caminhar sem preencher necessariamente cada segundo.
Conversar sem dividir continuamente a atenção.
Permitir que uma experiência tenha tempo para se desenvolver antes de decidir que ela não é suficientemente interessante.
E até aceitar que, durante alguns minutos, nada particularmente estimulante aconteça.
Porque o tédio não precisa ser eliminado toda vez que aparece.
Às vezes, aquilo que interpretamos como necessidade de mais estimulação pode ser apenas a dificuldade de permanecer tempo suficiente para que a atenção volte a encontrar alguma coisa na qual valha a pena se envolver.
Referências
Camerini, A.-L., Morlino, S., & Marciano, L. (2023). Boredom and digital media use: A systematic review and meta-analysis. Computers in Human Behavior Reports, 11, 100313.
Tam, K. Y. Y., & Inzlicht, M. (2024). People are increasingly bored in our digital age. Communications Psychology, 2, 106.
Tam, K. Y. Y., & Inzlicht, M. (2024). Fast-forward to boredom: How switching behavior on digital media makes people more bored. Journal of Experimental Psychology: General, 153(10), 2409–2426.
Westgate, E. C., & Wilson, T. D. (2018). Boring thoughts and bored minds: The MAC model of boredom and cognitive engagement. Psychological Review, 125(5), 689–713.
Leia também nossos outros artigos:
Quando o tédio se tornou insuportável; A verdadeira pergunta nunca foi sobre o celular; O modelo que mudou a pergunta; O cérebro não evoluiu para resistir a isso; Como a ciência descobriu que o problema nunca foi só o celular?; Existe mesmo dependência digital?; Como recuperar sua capacidade de concentração? O que a ciência realmente recomenda; O uso excessivo do celular pode causar danos à nossa capacidade de aprendizagem? ; Dependência digital: quando o uso se torna necessidade e por que crianças e adolescentes estão mais vulneráveis; O uso digital não é neutro; O cérebro não foi feito para excesso; Dependência digital; O cérebro precisa de segurança para mudar; Por que o cérebro aprende mais com experiências emocionais intensas?; Por que o cérebro odeia incerteza?; Porque o cérebro teme a rejeição social?; Porque a segurança emocional regula o cérebro?.
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Dra. Dani Ghorayeb, Psicóloga e Psicoterapeuta, PhD e Mestre em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas UNICAMP com mais de 20 anos de experiência. Psicoterapia integrativa que une segurança emocional, Winnicott e TCC para promover mudanças profundas, sustentáveis e alinhadas ao seu tempo interno.
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