Quando o tédio se tornou insurpotável?
Hiperestimulação digital, atenção e a dificuldade de simplesmente ficar sem fazer nada - parte 1.
AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL


Esperar alguns minutos em uma fila. Aguardar o elevador. Tomar um café sozinho. Permanecer sentado enquanto alguém se atrasa. Deitar-se e esperar o sono chegar.
Até pouco tempo atrás, situações como essas incluíam inevitavelmente pequenos períodos nos quais nada especialmente interessante acontecia.
Hoje, alguns segundos parecem suficientes para que a mão procure quase automaticamente o celular.
Não necessariamente porque exista algo importante para ver. Muitas vezes, simplesmente porque não há nada acontecendo.
Essa mudança aparentemente banal levanta uma questão importante para a psicologia contemporânea:
estamos ficando menos capazes de tolerar períodos de baixa estimulação?
O tédio não é simplesmente falta do que fazer
Na psicologia, o tédio é uma experiência mais complexa do que a ausência de entretenimento.
O Meaning and Attentional Components Model (MAC), desenvolvido por Erin Westgate e Timothy Wilson, propõe que tendemos a experimentar tédio quando temos dificuldade de nos envolver satisfatoriamente com aquilo que estamos fazendo.
Isso pode acontecer quando não conseguimos direcionar adequadamente nossa atenção para uma atividade ou quando aquilo que estamos fazendo parece ter pouco significado.
Assim, o tédio pode ser compreendido como um sinal psicológico de que existe alguma dificuldade em estabelecer um envolvimento satisfatório com a experiência presente.
E isso nos leva ao ambiente digital contemporâneo.
Nunca tivemos tanta estimulação disponível
O smartphone modificou radicalmente nossa relação com os estímulos.
Em poucos segundos podemos alternar entre mensagens, vídeos, notícias, músicas, redes sociais, jogos, compras e conversas.
Não precisamos esperar.
Não precisamos permanecer muito tempo em uma experiência.
E, principalmente, quase nunca precisamos tolerar a ausência de novidade.
Os pesquisadores Katy Tam e Michael Inzlicht chamaram atenção para um paradoxo interessante: apesar de vivermos em um período no qual entretenimento e estimulação estão disponíveis praticamente o tempo todo, pesquisas indicam aumento dos relatos de tédio, particularmente entre jovens.
Em uma perspectiva publicada em 2024 na Communications Psychology, os pesquisadores propõem que determinadas formas de utilização das mídias digitais podem contribuir para esse fenômeno.
Entre os mecanismos discutidos estão a divisão da atenção, o aumento do nível de engajamento desejado, a diminuição da percepção de significado, a maior percepção das alternativas disponíveis e o próprio uso das mídias digitais como uma estratégia nem sempre eficiente para combater o tédio.
O paradoxo da hiperestimulação
A expressão hiperestimulação digital pode ser útil para descrever esse ambiente, desde que utilizada com cuidado.
Não se trata de um diagnóstico psicológico nem de uma doença provocada pela tecnologia.
Estamos falando de um contexto no qual estímulos variados, novos, facilmente acessíveis e rapidamente substituíveis permanecem disponíveis durante grande parte do dia.
Imagine assistir a um vídeo enquanto chegam mensagens.
Você interrompe o vídeo para verificar uma notificação.
Volta.
Pouco depois, perde o interesse e passa para outro vídeo.
Em seguida abre uma rede social.
Depois retorna às mensagens.
Existe muita estimulação.
Mas existe pouca permanência em cada experiência.
E essa diferença pode ser importante.
Tentamos escapar do tédio trocando de estímulo
Tam e Inzlicht decidiram investigar experimentalmente exatamente esse comportamento.
Em uma série de sete experimentos, com um total de 1.223 participantes, os pesquisadores estudaram aquilo que chamaram de digital switching: trocar de vídeo ou avançar partes do conteúdo em busca de algo mais interessante.
A lógica parece óbvia.
Se estou entediado com o que estou assistindo, trocar deveria diminuir meu tédio.
Mas os resultados mostraram um paradoxo.
Em determinadas condições experimentais, quando os participantes podiam trocar ou avançar os vídeos, relatavam mais tédio e menor satisfação, atenção e significado do que quando permaneciam assistindo ao conteúdo.
Os pesquisadores encontraram evidências de uma relação bidirecional: o tédio pode estimular a troca de conteúdo, mas a própria troca também pode aumentar o tédio.
Podemos representar esse processo assim:
Tédio → busca de outro estímulo → troca rápida → menor imersão → mais tédio → nova busca por estimulação.
Talvez estejamos confundindo estimulação com envolvimento
Esse é provavelmente um dos pontos mais importantes dessa discussão.
Ter muitos estímulos disponíveis não significa necessariamente estar verdadeiramente envolvido com alguma coisa.
Podemos passar uma hora vendo dezenas de conteúdos diferentes e terminar com a sensação de que nada realmente nos interessou.
Porque envolvimento psicológico exige alguma permanência.
Uma conversa precisa avançar.
Um livro precisa construir uma narrativa.
Uma música precisa transcorrer.
Um pensamento precisa ter tempo para se desenvolver.
Quando interrompemos continuamente uma experiência para verificar se existe outra potencialmente mais interessante, podemos impedir justamente aquilo que procurávamos: o envolvimento.
Talvez, portanto, a pergunta não seja apenas por que estamos tão entediados.
Talvez seja:
quanto tempo ainda conseguimos permanecer em uma experiência antes de procurar outra?
Na Parte 2, veremos por que a disponibilidade permanente de estímulos pode aumentar aquilo que esperamos de uma experiência para considerá-la suficientemente interessante — e por que uma coisa só pode começar a parecer insuficiente.
Referências
Tam, K. Y. Y., & Inzlicht, M. (2024). People are increasingly bored in our digital age. Communications Psychology, 2, 106.
Tam, K. Y. Y., & Inzlicht, M. (2024). Fast-forward to boredom: How switching behavior on digital media makes people more bored. Journal of Experimental Psychology: General, 153(10), 2409–2426.
Westgate, E. C., & Wilson, T. D. (2018). Boring thoughts and bored minds: The MAC model of boredom and cognitive engagement. Psychological Review, 125(5), 689–713.
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Dra. Dani Ghorayeb, Psicóloga e Psicoterapeuta, PhD e Mestre em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas UNICAMP com mais de 20 anos de experiência. Psicoterapia integrativa que une segurança emocional, Winnicott e TCC para promover mudanças profundas, sustentáveis e alinhadas ao seu tempo interno.
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