Ansiedade sob uma perspectiva evolucionista

Por que nosso cérebro dispara tantos alarmes?

A ansiedade faz parte da experiência humana. Ela não surgiu como uma falha do nosso organismo, mas como um sistema fundamental para a sobrevivência.

Ao longo da evolução, indivíduos capazes de perceber ameaças, antecipar perigos e mobilizar rapidamente o organismo diante deles tiveram maior possibilidade de sobreviver. Por isso, nosso cérebro desenvolveu mecanismos extremamente sensíveis à identificação de sinais de risco.

O problema começa quando esse sistema passa a responder de maneira excessiva, persistente ou desproporcional, produzindo sofrimento e interferindo na vida cotidiana.

É nesse ponto que podemos diferenciar a ansiedade normal e adaptativa da ansiedade patológica, presente nos transtornos de ansiedade.

Um cérebro preparado para detectar ameaças

A psiquiatria evolucionista oferece uma perspectiva particularmente interessante para compreendermos por que o sistema de ansiedade pode ser tão sensível.

Randolph Nesse utiliza o chamado “princípio do detector de fumaça” para explicar esse fenômeno.

Imagine um detector de fumaça. Para que ele seja eficiente, é preferível que eventualmente dispare enquanto alguém cozinha do que permaneça silencioso durante um incêndio.

Do ponto de vista da sobrevivência, o custo de um falso alarme pode ser muito menor do que o custo de não perceber uma ameaça verdadeira.

Algo semelhante ocorre com a ansiedade.

Ao longo da evolução, diante da incerteza, pode ter sido mais vantajoso reagir algumas vezes a perigos inexistentes do que deixar de reagir quando o perigo realmente estava presente.

Pesquisadores como Melissa Bateson, Ben Brilot e Daniel Nettle também destacam que compreender os transtornos de ansiedade exige primeiro compreender a função da ansiedade normal: preparar o organismo para detectar e responder a possíveis ameaças.

O problema clínico surge quando esse mecanismo começa a produzir falsos alarmes frequentes, mantendo a pessoa em estados persistentes de antecipação, preocupação, vigilância ou medo.

O organismo passa a reagir como se alguma coisa perigosa estivesse continuamente prestes a acontecer.

Quando a proteção começa a limitar a vida

Quando a ansiedade se torna intensa, é comum que a pessoa tente diminuir seu desconforto evitando aquilo que provoca medo.

Ela deixa de dirigir, viajar, frequentar determinados lugares, participar de situações sociais, enfrentar conflitos, falar em público ou realizar atividades que poderiam provocar ansiedade.

Em um primeiro momento, evitar funciona.

A ansiedade diminui.

Justamente por isso, o cérebro aprende que evitar foi uma estratégia eficiente de proteção.

Progressivamente, entretanto, o repertório da pessoa pode se tornar cada vez mais restrito. O que inicialmente parecia uma estratégia para controlar a ansiedade passa a contribuir para sua manutenção.

Cria-se um ciclo:

ameaça percebida → ansiedade → evitação → alívio imediato → fortalecimento da evitação.

A curto prazo, a pessoa sente-se melhor. A longo prazo, porém, o cérebro tem menos oportunidades de aprender que determinadas situações podem ser enfrentadas e que muitas das consequências antecipadas não acontecem.

É por isso que compreender os mecanismos que mantêm a ansiedade é tão importante quanto compreender sua origem.

Paul Gilbert: uma compreensão evolucionista da regulação emocional

A perspectiva evolucionista ocupa um lugar central no trabalho do psicólogo britânico Paul Gilbert, criador da Terapia Focada na Compaixão — Compassion Focused Therapy (CFT).

Gilbert parte de uma ideia fundamental: nosso cérebro atual é resultado de milhões de anos de evolução e reúne sistemas emocionais que surgiram em diferentes momentos da nossa história evolutiva.

Não escolhemos possuir um cérebro capaz de experimentar medo, ansiedade, vergonha, raiva ou autocrítica. Esses sistemas foram desenvolvidos porque desempenharam funções importantes relacionadas à sobrevivência e à vida social.

Entretanto, sistemas originalmente adaptativos podem produzir sofrimento quando se tornam excessivamente ativados ou difíceis de regular.

Gilbert propõe compreender parte da regulação emocional humana a partir de três grandes sistemas.

Sistema de ameaça e proteção

É responsável por identificar possíveis perigos e mobilizar respostas defensivas.

Medo, ansiedade, raiva, vigilância e comportamentos de luta, fuga ou submissão podem estar relacionados à ativação desse sistema.

Ele tende a funcionar rapidamente porque, do ponto de vista evolucionista, detectar uma ameaça tarde demais poderia ter consequências importantes.

Sistema de busca, impulso e conquista

Está relacionado à motivação para procurar recursos, perseguir objetivos, conquistar recompensas e realizar aquilo que consideramos importante.

É o sistema que nos mobiliza para buscar, fazer, alcançar e conquistar.

Embora fundamental, também pode tornar-se excessivamente dominante quando a sensação de valor pessoal depende continuamente de desempenho, produtividade, reconhecimento ou conquista.

Sistema de afiliação, tranquilização e segurança

Está associado às experiências de cuidado, vínculo, pertencimento, confiança e segurança.

Ao longo da evolução dos mamíferos, a proximidade de indivíduos protetores tornou-se um importante sinal de segurança.

Para seres humanos, sentir-se acolhido, compreendido e conectado aos outros também participa da regulação emocional.

O que isso nos ensina sobre a ansiedade?

Nos transtornos de ansiedade, o sistema de ameaça pode permanecer excessivamente ativado.

A pessoa passa a monitorar constantemente possíveis perigos, antecipar consequências negativas e interpretar determinadas situações como mais ameaçadoras do que efetivamente são.

Mas o trabalho de Gilbert acrescenta uma dimensão importante: regular a ansiedade não depende apenas de tentar “desligar” o sistema de ameaça.

Também envolve desenvolver outras formas de regulação emocional.

É nesse contexto que aparece a compaixão.

Na Terapia Focada na Compaixão, compaixão não significa passividade, pena de si mesmo ou simplesmente tentar pensar positivamente.

Ela envolve a capacidade de reconhecer o sofrimento e desenvolver motivação, coragem e recursos para lidar com ele.

Essa perspectiva é particularmente importante porque muitas pessoas ansiosas não apenas sentem medo. Elas também se criticam por sentir medo.

“Eu não deveria estar assim.”

“Por que não consigo controlar isso?”

“Todo mundo consegue lidar com isso menos eu.”

A ansiedade passa então a ser acompanhada de vergonha, autocrítica e sensação de inadequação.

A proposta de Gilbert ajuda a compreender que possuímos um cérebro extremamente sofisticado, mas também profundamente orientado para detectar ameaças.

Conhecer esse funcionamento pode modificar a maneira como uma pessoa interpreta seus próprios sintomas.

Compreender para poder modificar

A perspectiva evolucionista não pretende justificar ou normalizar o sofrimento provocado pelos transtornos de ansiedade.

Ao contrário.

Ela ajuda a explicar por que mecanismos originalmente importantes para nossa sobrevivência podem, em determinadas circunstâncias, tornar-se excessivamente ativados e produzir sofrimento.

A ansiedade normal nos prepara para responder a desafios e ameaças.

A ansiedade patológica restringe possibilidades, produz sofrimento e pode comprometer relacionamentos, trabalho, estudos, vida social e autonomia.

Compreender essa diferença é fundamental.

Nosso cérebro foi preparado para detectar perigos.

Mas compreender como esse sistema funciona também nos permite desenvolver novas formas de responder a ele.

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Dra. Daniela Ghorayeb — CRP 06/71744, Mestre e Doutora (PhD) em Saúde Mental — Unicamp
Psicologia Clínica — Ansiedade, Relacionamentos e Transtorno de Personalidade Borderline
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