Ansiedade e psicoterapia de grupo

Por que o vínculo também pode fazer parte do tratamento

Se vínculo, afiliação e segurança têm uma função tão importante na regulação emocional humana, o que acontece quando o próprio tratamento ocorre em grupo?

No artigo anterior, vimos que Paul Gilbert compreende a regulação emocional a partir de sistemas que foram moldados ao longo da evolução. Entre eles está o sistema relacionado à afiliação, ao cuidado e à sensação de segurança.

Seres humanos não regulam suas emoções apenas individualmente.

Somos uma espécie profundamente social. Ao longo da nossa história evolutiva, segurança também significou proximidade, pertencimento, cooperação e possibilidade de contar com outras pessoas.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que as relações interpessoais podem assumir um papel tão importante dentro da psicoterapia.

E é justamente nesse ponto que a psicoterapia de grupo oferece algo particular.

Ela não é simplesmente uma psicoterapia individual realizada simultaneamente com várias pessoas.

O próprio grupo pode tornar-se parte do processo terapêutico.

O que acontece em uma psicoterapia de grupo?

Em um grupo terapêutico, existem objetivos clínicos, critérios de participação, intervenções planejadas e condução de um ou mais profissionais capacitados.

Mas existe também algo que não pode ser inteiramente planejado: aquilo que começa a acontecer entre os participantes.

Uma pessoa escuta a experiência da outra.

Reconhece aspectos de si em histórias diferentes.

Percebe que determinados pensamentos que considerava estranhos também aparecem em outras pessoas.

Observa como alguém conseguiu enfrentar uma situação que ela ainda evita.

Recebe uma pergunta que nunca havia feito a si mesma.

Oferece uma percepção que ajuda outro participante.

E, progressivamente, o grupo deixa de ser apenas um conjunto de indivíduos reunidos na mesma sala.

Forma-se uma rede de relações.

Foi justamente essa dimensão que Irvin Yalom, um dos mais importantes autores da psicoterapia de grupo, procurou compreender.

Yalom e os fatores terapêuticos do grupo

Yalom, posteriormente em colaboração com Molyn Leszcz, descreveu diferentes processos que podem contribuir para a mudança psicológica dentro dos grupos.

Eles ficaram conhecidos como fatores terapêuticos da psicoterapia de grupo.

Esses fatores não funcionam isoladamente nem aparecem da mesma maneira em todos os grupos. Mas ajudam a explicar por que determinadas experiências que acontecem entre os participantes podem adquirir valor terapêutico.

Entre elas estão a universalidade, a instalação de esperança, o altruísmo, a aprendizagem interpessoal e a coesão grupal.

“Achei que isso acontecesse apenas comigo”

Um dos conceitos mais conhecidos de Yalom é a universalidade.

O sofrimento psicológico frequentemente produz isolamento.

Uma pessoa ansiosa pode passar anos acreditando que suas preocupações são absurdas, que seus medos são incompreensíveis ou que as outras pessoas conseguem enfrentar a vida com uma facilidade que ela não possui.

Ela observa o comportamento externo dos outros, mas conhece profundamente apenas o seu próprio mundo interno.

Essa comparação costuma ser injusta.

No grupo, algo diferente pode acontecer.

Quando outra pessoa descreve uma experiência semelhante, surge uma descoberta:

“Então não sou apenas eu.”

Isso não elimina o problema.

Mas pode diminuir a sensação de estranheza, inadequação e vergonha que muitas vezes acompanha os transtornos psicológicos.

O sofrimento deixa de ser vivido exclusivamente como uma falha individual e passa a ser reconhecido como uma experiência humana que pode ser compreendida e compartilhada.

Ver alguém mudar também modifica aquilo que consideramos possível

Outro fator descrito por Yalom é a instilação de esperança.

Imagine alguém que evita dirigir há anos por medo de ter uma crise de ansiedade.

Dentro de um grupo, essa pessoa pode acompanhar outra participante que tinha uma dificuldade semelhante.

Primeiro ela consegue dirigir algumas quadras.

Depois atravessa a cidade.

Mais tarde relata que realizou uma viagem que havia evitado durante muito tempo.

O progresso do outro não garante o próprio progresso.

Mas produz algo psicologicamente relevante:

aquilo que parecia impossível passa a parecer possível.

Em psicoterapia, esperança não significa acreditar ingenuamente que tudo ficará bem.

Significa perceber que mudança pode acontecer.

Quando ajudar também se torna terapêutico

Yalom também descreve o altruísmo como um fator importante.

Muitas pessoas chegam à psicoterapia identificadas quase exclusivamente com suas dificuldades.

“Sou a pessoa que tem ansiedade.”

“Sou aquela que não consegue.”

“Sou quem precisa de ajuda.”

Mas dentro de um grupo ocorre uma inversão interessante.

A experiência que produziu sofrimento durante anos pode, em determinado momento, ajudar outra pessoa.

Um participante pode reconhecer algo que o outro ainda não percebeu.

Pode compartilhar uma estratégia que funcionou.

Pode simplesmente dizer:

“Eu sei como isso é.”

Nesse momento, ele deixa de ocupar apenas a posição daquele que necessita de ajuda.

Descobre que também possui algo para oferecer.

Aprendizagem interpessoal: descobrimos muito sobre nós nas relações

Outro conceito central na obra de Yalom é a aprendizagem interpessoal.

Nossas dificuldades emocionais não aparecem apenas dentro da nossa cabeça.

Elas também aparecem na maneira como nos relacionamos.

Uma pessoa pode evitar conflitos.

Outra pode precisar continuamente de aprovação.

Outra pode interpretar silêncio como rejeição.

Outra pode assumir responsabilidades excessivas.

Outra pode ter dificuldade de pedir ajuda.

Esses padrões inevitavelmente podem aparecer dentro do próprio grupo.

E exatamente por aparecerem ali, podem ser observados.

A pessoa começa a perceber não apenas o que sente, mas também o que faz quando sente aquilo.

Essa é uma diferença importante.

O grupo oferece a possibilidade de observar padrões relacionais enquanto eles acontecem.

E o que isso significa especificamente para a ansiedade?

A ansiedade frequentemente se mantém por meio da antecipação e da evitação.

A pessoa imagina o que poderá acontecer e tenta evitar situações capazes de produzir desconforto.

Dependendo do tipo de ansiedade, isso pode envolver:

falar diante de outras pessoas;

expressar uma opinião;

discordar;

ser avaliado;

mostrar vulnerabilidade;

admitir que não sabe alguma coisa;

estabelecer limites;

pedir ajuda;

ou simplesmente permanecer em uma situação enquanto sente ansiedade.

Em um grupo terapêutico, algumas dessas experiências podem surgir espontaneamente.

A diferença é que elas acontecem dentro de um ambiente estruturado para que possam ser observadas, compreendidas e trabalhadas.

Assim, o grupo pode tornar-se também um espaço de experimentação.

A pessoa não apenas fala sobre aquilo que costuma fazer.

Ela pode perceber seus padrões enquanto eles estão acontecendo.

A coesão grupal

Entre os processos mais estudados em psicoterapia de grupo está a coesão.

De maneira simplificada, podemos pensar na coesão como a qualidade dos vínculos e do trabalho construído entre participantes e terapeutas.

Não significa que todos precisam concordar.

Não significa ausência de conflitos.

E certamente não significa que o grupo precise se transformar em um espaço artificialmente harmonioso.

Um grupo terapeuticamente produtivo precisa permitir proximidade, mas também diferença.

Precisa permitir apoio, mas também questionamento.

Precisa oferecer segurança suficiente para que alguém possa falar de algo difícil sem que isso signifique ausência de desafio.

A literatura contemporânea sobre psicoterapia de grupo mostra uma associação consistente entre a qualidade dessas relações e os resultados do tratamento.

Isso nos ajuda a compreender uma ideia importante:

o vínculo não é apenas o cenário no qual a terapia acontece. Ele pode constituir parte do próprio processo terapêutico.

Grupo terapêutico não é grupo de conversa

Essa distinção é fundamental.

Um grupo terapêutico não é simplesmente um encontro de pessoas com problemas semelhantes para conversar sobre suas experiências.

O compartilhamento pode ser importante, mas ele não constitui, sozinho, uma psicoterapia.

Existe um trabalho clínico estruturado.

O psicoterapeuta observa padrões, identifica processos que mantêm sintomas, facilita interações, propõe intervenções, acompanha movimentos de aproximação e evitação e ajuda os participantes a transformar aquilo que ocorre no grupo em material terapêutico.

No tratamento da ansiedade, isso significa também trabalhar pensamentos, comportamentos, estratégias de regulação emocional e padrões de evitação que contribuem para a manutenção do transtorno.

A experiência do outro pode ampliar a nossa própria experiência

Existe algo particularmente interessante na psicoterapia de grupo:

podemos aprender mesmo quando não estamos falando.

Ao escutar uma pessoa descrever uma dificuldade, podemos reconhecer algo que nunca havíamos conseguido nomear.

Ao observar alguém enfrentando uma situação temida, podemos reconsiderar nossas próprias possibilidades.

Ao perceber como reagimos à fala de outra pessoa, podemos descobrir aspectos de nós mesmos.

E, quando finalmente falamos, recebemos não apenas a perspectiva do terapeuta, mas diferentes perspectivas humanas sobre aquilo que estamos vivendo.

É uma experiência terapêutica diferente.

Não necessariamente melhor ou pior que a psicoterapia individual.

Mas diferente.

E essa diferença pode ser especialmente rica.

Quando o tratamento também acontece entre pessoas

Se retornarmos à perspectiva evolucionista de onde começamos, encontramos uma ideia fundamental.

Nosso cérebro possui sistemas extremamente sensíveis à ameaça.

Mas também possui sistemas preparados para responder a sinais de segurança, cuidado, cooperação e pertencimento.

Ao longo da evolução humana, sobreviver nunca foi uma tarefa exclusivamente individual.

Talvez por isso algumas mudanças psicológicas também encontrem nas relações um terreno particularmente fértil.

Em um grupo terapêutico, o paciente pode compreender sua ansiedade, aprender novas estratégias e enfrentar comportamentos de evitação.

Mas pode também experimentar algo essencialmente humano:

perceber que pode ser compreendido por outras pessoas, aprender com elas e descobrir que sua própria experiência também pode ajudar alguém.

É nesse ponto que o grupo deixa de ser apenas o lugar onde a psicoterapia acontece.

O próprio grupo passa a fazer parte do tratamento.

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Dra. Daniela Ghorayeb — CRP 06/71744, Mestre e Doutora (PhD) em Saúde Mental — Unicamp
Psicologia Clínica — Ansiedade, Relacionamentos e Transtorno de Personalidade Borderline
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