Autoregulação emocional, comida e festas de final de ano
Como saborear sem entrar em guerra com o prato (nem com o cérebro).
AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL


As festas de final de ano têm um poder quase mágico: pratos que só aparecem uma vez por ano, sobremesas que carregam memória afetiva, espumantes que “pedem repeteco” e aquela frase clássica que todos já disseram ou ouviram:
“Ah, agora já foi, só em janeiro mesmo.”
Mas e se o problema não fosse a comida — e sim como o nosso cérebro lida com emoção, recompensa e excesso nesse período?
A boa notícia é que é possível atravessar as festas com prazer, consciência e menos arrependimento, sem entrar em dietas punitivas, sem culpa e sem precisar de força de vontade heroica.
O que acontece no cérebro diante da comida de festa?
Do ponto de vista neuropsicológico, o final de ano é um prato cheio (literalmente) para o cérebro:
• Sistema de recompensa (dopamina): comidas ricas em açúcar, gordura e álcool ativam intensamente o circuito dopaminérgico. Isso aumenta o desejo por mais, mesmo quando o corpo já está satisfeito.
• Emoções e memória: sabores estão profundamente ligados ao hipocampo e à memória emocional. Comer não é apenas nutrir — é lembrar, pertencer, celebrar.
• Córtex pré-frontal: responsável por planejamento, moderação e autorregulação. Ele funciona pior quando estamos cansados, emocionalmente ativados ou sob efeito do álcool.
Ou seja: não é falta de caráter nem “fraqueza”.
É um cérebro humano, emocional e socialmente estimulado.
Autoregulação alimentar não é controle rígido (nem sofrimento)
Autoregulação emocional aplicada à alimentação não significa:
❌ comer pouco
❌ negar prazer
❌ “se comportar” diante da comida
Ela significa perceber sinais internos, emoções e impulsos, e escolher conscientemente como se relacionar com a comida, em vez de entrar no piloto automático do excesso.
É aqui que o mindfulness alimentar entra como um aliado poderoso — e gentil.
Mindfulness: comer com presença, não com culpa
Mindfulness, aplicado à alimentação, não é comer devagar como regra rígida ou analisar cada garfada como se fosse uma prova. É algo bem mais simples (e possível):
👉 estar presente na experiência de comer, percebendo:
• sabor
• textura
• aroma
• nível de fome e saciedade
• prazer real (e não automático)
Estudos mostram que práticas de mindfulness reduzem episódios de comer impulsivo e aumentam a percepção de saciedade, sem reduzir o prazer da comida (Kristeller & Wolever, 2011; Katterman et al., 2014).
Estratégias práticas para saborear sem perder o controle
Aqui vão 3 estratégias realistas, pensadas para a vida real — com rabanada, pavê e taça na mão.
🧠 1. Diferencie fome física de fome emocional (sem brigar com nenhuma)
Antes de repetir o prato ou pegar mais uma taça, vale uma pausa interna rápida:
• “Estou com fome ou buscando conforto, prazer ou pausa?”
Se for fome emocional, tudo bem — mas que seja consciente. Comer sabendo por que reduz a chance de excesso automático.
🍰 2. Escolha com intenção (em vez de provar tudo no automático)
Você não precisa comer tudo “porque está ali”.
Pergunta-chave:
• “O que eu realmente quero saborear hoje?”
Quando escolhemos conscientemente, o cérebro registra mais prazer e menos urgência por repetição.
🍷 3. Use o álcool como parte da experiência — não como anestesia emocional
O álcool reduz a inibição do córtex pré-frontal, facilitando excessos alimentares e emocionais. Alternar bebida alcoólica com água, reduzir a velocidade e perceber os efeitos no corpo é autorregulação, não privação.
Comer com prazer também é autocuidado
A proposta não é perfeição, mas presença.
Não é “controlar-se”, mas escutar-se.
Não é evitar excessos a qualquer custo, mas reduzir arrependimentos desnecessários.
Quando a comida deixa de ser campo de batalha e passa a ser experiência consciente, o corpo agradece — e a relação com a alimentação se torna mais gentil, especialmente em um período que já é emocionalmente intenso.
Talvez a pergunta mais importante não seja
“Quanto eu posso comer?”
mas sim:
“Como quero me sentir depois dessa refeição?”
Referências científicas (para aprofundamento)
• Kristeller, J. L., & Wolever, R. Q. (2011). Mindfulness-based eating awareness training for treating binge eating disorder. Journal of Eating Disorders.
• Katterman, S. N. et al. (2014). Mindfulness meditation as an intervention for binge eating, emotional eating, and weight loss. Eating Behaviors.
• Gross, J. J. (2015). Emotion regulation: Current status and future prospects. Psychological Inquiry.
• Volkow, N. D., Wang, G. J., & Baler, R. D. (2011). Reward, dopamine and the control of food intake. American Journal of Clinical Nutrition.
• Brewer, J. A. et al. (2018). Mindfulness training for addictive behaviors. Current Opinion in Psychology.
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