Autoregulação emocional nas festas de final de ano

Como proteger o cérebro, os vínculos e o próprio bem-estar.

AUTORREGULAÇÃO EMOCIONAL

As festas de final de ano costumam ser apresentadas socialmente como momentos de alegria, união e celebração. No entanto, do ponto de vista psicológico, elas também representam um contexto de alta carga emocional e social, no qual expectativas, memórias antigas, diferenças de valores e histórias familiares se encontram em um curto espaço de tempo.

É justamente nesses cenários que a autoregulação emocional deixa de ser um conceito abstrato e se torna uma habilidade essencial para atravessar o momento com mais leveza, preservando vínculos e evitando situações embaraçosas ou altamente estressoras.

O que acontece com o cérebro em confraternizações de final de ano?

Em encontros sociais intensos — especialmente aqueles que envolvem familiares ou pessoas com quem temos relações ambivalentes — o cérebro entra em um estado de hipervigilância social.

Alguns sistemas são particularmente ativados:

• Amígdala cerebral: responsável por detectar ameaças. Em contextos sociais, ela reage não apenas a perigos reais, mas também a críticas, ironias, comparações e lembranças emocionais antigas.

• Sistema de memória emocional (hipocampo + redes associativas): situações atuais podem reativar experiências passadas, como conflitos familiares, sentimentos de exclusão ou cobranças recorrentes.

• Córtex pré-frontal: área responsável por inibição de impulsos, tomada de perspectiva e autorregulação. Seu funcionamento pode ser prejudicado por fadiga, consumo de álcool, privação de sono e excesso de estímulos sociais.

Ou seja, não é raro que, nessas ocasiões, reajamos mais do que respondamos, falando demais, silenciando excessivamente, ironizando, confrontando ou se retirando emocionalmente do encontro.

A autorregulação emocional atua exatamente como um freio neuropsicológico, permitindo que o córtex pré-frontal mantenha alguma liderança sobre as respostas emocionais automáticas.

Autoregulação não é fingir que está tudo bem

Um equívoco comum é confundir autorregulação com repressão emocional. Autoregular-se não significa engolir sentimentos, ser artificial ou “levar desaforo para casa”. Significa, antes, reconhecer o que se sente, nomear internamente a emoção e escolher conscientemente como agir, em vez de ser conduzido por impulsos.

Em contextos sociais delicados, isso envolve algumas decisões internas importantes:

• “Vale a pena entrar nesse assunto agora?”

• “O que estou sentindo é sobre o presente ou sobre algo antigo?”

• “Que tipo de pessoa eu quero ser nesse encontro?”

Essas perguntas simples já ativam redes pré-frontais e reduzem a reatividade automática.

Pequenas estratégias técnicas para atravessar as festas com mais equilíbrio

Abaixo estão algumas dicas práticas, baseadas em evidências da psicologia cognitiva, comportamental e da neurociência afetiva:

1. Antecipe gatilhos emocionais previsíveis

Antes do evento, identifique mentalmente:

• Pessoas que costumam provocar desconforto

• Temas sensíveis (dinheiro, política, aparência, decisões de vida)

• Situações recorrentes de comparação ou crítica

Antecipar não é ruminar; é preparar o cérebro, reduzindo o impacto surpresa sobre a amígdala.

2. Use pausas fisiológicas como aliadas

Quando perceber ativação emocional:

• Inspire lenta e profundamente pelo nariz

• Expire mais lentamente pela boca

• Faça isso por 60 a 90 segundos

Esse tempo é suficiente para reduzir a ativação do sistema nervoso simpático e permitir que o córtex pré-frontal retome parte do controle.

3. Estabeleça limites internos, não apenas externos

Nem todo limite precisa ser verbalizado. Às vezes, o limite é não se explicar demais, não rebater, mudar de assunto ou simplesmente se afastar momentaneamente.

Autoregulação também é saber que nem toda provocação merece resposta.

4. Reduza fatores que diminuem o autocontrole

O excesso de álcool, a privação de sono e a fome reduzem significativamente a capacidade de autorregulação emocional. Pequenos cuidados fisiológicos aumentam muito a chance de um encontro mais equilibrado.

5. Tenha uma “intenção emocional” para o encontro

Entrar em uma confraternização com uma intenção clara ajuda a organizar o comportamento:

• “Vou focar em estar presente com quem me faz bem”

• “Meu objetivo é atravessar esse encontro com tranquilidade”

• “Não preciso resolver histórias antigas hoje”

Essa intenção funciona como um norte cognitivo, especialmente em momentos de tensão.

Curtir o momento não exige perfeição emocional

É importante lembrar que autorregulação não elimina desconfortos. Ela apenas impede que emoções difíceis se transformem em conflitos desnecessários ou arrependimentos posteriores.

Festas de final de ano são contextos complexos porque reúnem afeto, história, expectativas e, muitas vezes, feridas antigas. Conseguir atravessá-las com mais consciência emocional é uma forma de maturidade psíquica — e também de autocuidado.

Regulação emocional não é sobre controlar os outros, mas sobre cuidar da própria experiência interna, escolhendo respostas mais alinhadas com quem somos hoje, e não com versões antigas de nós mesmos.

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