Por que compreender o passado não é suficiente para transformar nossas respostas emocionais?

Memória emocional, aprendizagem, neurobiologia e os limites da compreensão racional na transformação do sofrimento psicológico

TRAUMA, NEUROCIÊNCIA E REGULAÇÃO EMOCIONAL

Dra. Dani Ghorayeb

Quando compreender não significa conseguir mudar

Uma pessoa pode passar anos tentando compreender suas dificuldades emocionais.

Pode reconhecer que cresceu em um ambiente marcado por críticas, identificar a origem de sua insegurança e perceber como determinadas experiências influenciaram seus relacionamentos.

Pode inclusive compreender que as circunstâncias atuais são muito diferentes daquelas que viveu no passado.

Ainda assim, diante de uma crítica, de um conflito ou da possibilidade de rejeição, pode experimentar uma reação emocional intensa, acompanhada de alterações fisiológicas difíceis de controlar.

O coração acelera. A musculatura fica tensa. Os pensamentos se tornam repetitivos. Surge uma sensação de ameaça, mesmo quando a pessoa reconhece que não existe um perigo proporcional à intensidade de sua reação.

Essa aparente contradição é uma das questões mais importantes para a compreensão do sofrimento psicológico.

Por que saber que estamos seguros não significa necessariamente nos sentirmos seguros?

E, principalmente, por que compreender a origem de uma resposta emocional nem sempre é suficiente para modificá-la?

A resposta exige que ultrapassemos a ideia de que o funcionamento emocional é governado exclusivamente pela consciência e pela razão.

Nossas respostas emocionais envolvem processos de aprendizagem, memória, avaliação de ameaças, regulação fisiológica e experiências relacionais que nem sempre estão disponíveis ao controle consciente imediato.

Compreender esses mecanismos pode ampliar nossa maneira de pensar a psicoterapia, especialmente quando trabalhamos com pessoas que viveram experiências traumáticas ou adversidades prolongadas.

1. O cérebro não responde apenas ao presente

Quando encontramos uma situação potencialmente ameaçadora, nosso organismo não realiza uma avaliação inteiramente nova, como se nunca tivesse vivido experiências semelhantes.

Experiências anteriores participam da construção de expectativas sobre o ambiente.

Ao longo da vida, aprendemos a identificar sinais associados à segurança, à ameaça, à aprovação, à rejeição e à previsibilidade das relações.

Parte dessa aprendizagem acontece de maneira deliberada e consciente. Outra parte ocorre por processos associativos, que podem influenciar nossas respostas sem exigir uma reflexão explícita.

Imagine uma criança que cresce em um ambiente no qual pequenas alterações no tom de voz dos adultos frequentemente antecedem conflitos intensos.

Com o tempo, determinados sinais podem adquirir um significado emocional importante.

Uma expressão facial, uma mudança de humor ou um silêncio prolongado podem passar a provocar antecipação de ameaça.

Essas associações não dependem necessariamente de uma decisão consciente.

Na vida adulta, sinais semelhantes podem continuar despertando respostas emocionais, mesmo em relações que apresentam características muito diferentes das experiências anteriores.

Isso não significa que o cérebro esteja literalmente confundindo passado e presente.

Significa que aprendizagens anteriores podem influenciar a maneira como situações atuais são interpretadas e como o organismo se prepara para responder a elas.

Essa distinção é importante porque evita uma explicação simplista, segundo a qual o indivíduo estaria permanentemente revivendo o passado.

O que observamos pode envolver a ativação de expectativas, associações e padrões de resposta construídos ao longo do desenvolvimento.

Esses processos são influenciados pela história individual, mas também pelas circunstâncias presentes e pelas experiências posteriores.

2. Memória emocional: nem tudo que aprendemos pode ser modificado apenas pela reflexão

Quando pensamos em memória, frequentemente imaginamos a capacidade de recordar acontecimentos.

Lembramos de uma conversa, de uma situação difícil ou de uma experiência importante.

Entretanto, a memória humana envolve diferentes sistemas e processos.

A memória declarativa permite recuperar conscientemente informações e acontecimentos. Já outras formas de aprendizagem e memória podem influenciar comportamentos e respostas emocionais sem exigir uma recordação consciente detalhada.

Na aprendizagem associativa, por exemplo, um estímulo inicialmente neutro pode adquirir relevância emocional quando é repetidamente associado a experiências ameaçadoras.

Pesquisas sobre condicionamento do medo demonstram que estímulos associados a acontecimentos aversivos podem posteriormente provocar respostas defensivas, mesmo quando a ameaça original já não está presente.

Esses estudos ajudam a compreender alguns aspectos das respostas relacionadas ao trauma.

Entretanto, é necessário cuidado.

Os resultados de experimentos de condicionamento não explicam, isoladamente, toda a complexidade das experiências traumáticas humanas.

O trauma psicológico envolve também significados pessoais, relações interpessoais, desenvolvimento, contexto social e processos cognitivos complexos.

Ainda assim, uma contribuição importante dessas pesquisas é demonstrar que a aprendizagem emocional não depende exclusivamente da compreensão consciente.

Uma pessoa pode recordar determinado acontecimento, compreender seu significado e reconhecer que ele pertence ao passado.

Mas isso não garante que todas as associações emocionais relacionadas àquela experiência tenham sido modificadas.

Essa diferença ajuda a explicar por que a elaboração intelectual de uma experiência pode ser necessária e valiosa, mas nem sempre suficiente para transformar respostas automáticas.

3. O papel da amígdala, do hipocampo e do córtex pré-frontal

A neurociência tem investigado como diferentes sistemas cerebrais participam da aprendizagem emocional, da memória e da avaliação de ameaças.

Entre as estruturas frequentemente estudadas estão a amígdala, o hipocampo e regiões do córtex pré-frontal.

A amígdala participa da identificação e da aprendizagem da relevância emocional dos estímulos, especialmente em situações relacionadas à ameaça.

O hipocampo contribui para a formação e a recuperação de memórias episódicas, além de participar do processamento das informações contextuais.

Regiões do córtex pré-frontal estão envolvidas em diferentes processos de avaliação, planejamento, controle cognitivo e regulação emocional.

Essas estruturas não funcionam de maneira isolada.

Elas integram redes complexas, cujas atividades variam conforme o contexto, o estado emocional, as características individuais e as demandas da situação.

Estudos com pessoas expostas a experiências traumáticas identificaram alterações em padrões de funcionamento e conectividade de algumas dessas redes.

Entretanto, os resultados não são uniformes.

Nem toda pessoa exposta ao trauma apresenta as mesmas alterações, e diferenças observadas em estudos de neuroimagem não permitem estabelecer, individualmente, que determinada reação emocional foi causada por uma alteração cerebral específica.

Também precisamos evitar uma oposição excessivamente simplificada entre um cérebro emocional e um cérebro racional.

A emoção não é produzida exclusivamente pela amígdala, assim como a razão não pertence exclusivamente ao córtex pré-frontal.

Cognição e emoção são processos profundamente integrados.

O que pode acontecer, em determinadas circunstâncias, é que respostas de ameaça sejam mobilizadas rapidamente, enquanto processos de avaliação consciente e regulação deliberada encontram maior dificuldade para modificar a experiência emocional naquele momento.

Isso nos aproxima de uma questão clínica fundamental: o que acontece com a capacidade de reflexão quando a ativação emocional se torna muito intensa?

4. Quando a intensidade emocional compromete a capacidade de reflexão

Imagine uma pessoa que apresenta grande sensibilidade à rejeição.

Durante uma conversa, percebe uma expressão de desaprovação no rosto de alguém importante.

Imediatamente, experimenta angústia intensa.

Seus pensamentos passam a girar em torno da possibilidade de abandono. A atenção se concentra nos sinais de ameaça. A musculatura se contrai e surge uma necessidade urgente de obter alguma garantia de que a relação está preservada.

Em um momento de maior tranquilidade, essa pessoa talvez consiga reconhecer que uma expressão facial isolada não significa rejeição.

Entretanto, durante a experiência de intensa ativação emocional, essa compreensão pode tornar-se menos acessível.

Isso acontece porque a emoção influencia a atenção, a memória de trabalho, a interpretação das informações e a seleção de respostas comportamentais.

Sob determinadas condições de estresse, processos executivos podem apresentar prejuízos temporários, especialmente quando as demandas emocionais são muito elevadas.

A intensidade dessas alterações varia entre indivíduos e situações.

Na prática clínica, frequentemente encontramos pessoas que conseguem analisar suas dificuldades com clareza quando estão emocionalmente estáveis, mas apresentam grande dificuldade para utilizar esse conhecimento durante uma crise.

Esse fenômeno não deve ser interpretado automaticamente como falta de motivação, resistência ao tratamento ou ausência de compreensão.

Uma pessoa pode possuir recursos cognitivos importantes e, ainda assim, encontrar dificuldade para acessá-los quando está intensamente desregulada.

Essa observação tem implicações diretas para a psicoterapia.

Exigir reflexão elaborada, reestruturação cognitiva ou tomada de decisões complexas durante um estado de ativação emocional muito intensa pode ser pouco produtivo.

Em algumas situações, a prioridade clínica precisa ser ajudar a pessoa a recuperar condições mínimas de estabilidade.

Somente depois disso determinados processos de elaboração poderão ser realizados com maior eficácia.

5. Regulação emocional não é simplesmente convencer a si mesmo de que está tudo bem

James Gross, um dos principais pesquisadores da regulação emocional, propôs um modelo que permite compreender diferentes momentos nos quais podemos influenciar nossas experiências emocionais.

A regulação pode envolver a escolha ou modificação de situações, o direcionamento da atenção, a mudança na interpretação de acontecimentos e a modulação de componentes da resposta emocional.

Isso significa que regular emoções não corresponde exclusivamente a modificar pensamentos.

Também não significa impedir que emoções desagradáveis apareçam.

Em determinadas circunstâncias, regular uma emoção pode envolver reconhecer sua presença e tolerar sua intensidade sem agir impulsivamente.

Em outras, pode exigir afastar-se temporariamente de uma situação, buscar apoio interpessoal ou utilizar estratégias que contribuam para diminuir a ativação fisiológica.

A reavaliação cognitiva, amplamente investigada na literatura científica, pode ser uma estratégia eficaz em diferentes contextos.

Entretanto, sua utilização depende de condições individuais e situacionais.

Quando uma pessoa está intensamente mobilizada emocionalmente, pode encontrar dificuldade para produzir interpretações alternativas ou considerá-las emocionalmente convincentes.

Por isso, dizer a alguém que está angustiado que não existe motivo para sentir medo pode não produzir o efeito esperado.

A pessoa talvez já saiba disso.

O problema não está necessariamente na ausência de informação.

Está na dificuldade de modificar uma resposta emocional que envolve múltiplos processos.

A regulação emocional não acontece apenas quando mudamos o que pensamos. Ela também envolve aprender a reconhecer, tolerar e responder de maneira diferente ao que sentimos.

6. O desenvolvimento de uma capacidade fundamental: observar a emoção sem ser inteiramente dominado por ela

Durante nossas discussões sobre psicoterapia e trauma, uma questão merece atenção especial: a diferença entre experimentar uma emoção e perder temporariamente a capacidade de observá-la.

Considere duas situações.

Na primeira, uma pessoa experimenta medo intenso e imediatamente interpreta essa emoção como prova de que algo terrível acontecerá.

Sua atenção se concentra exclusivamente na ameaça percebida. Os pensamentos se tornam repetitivos e suas possibilidades de resposta diminuem.

Na segunda, a pessoa também experimenta medo, mas consegue reconhecer:

“Estou sentindo muito medo neste momento. Minha reação está intensa. Preciso de algum tempo antes de decidir o que fazer.”

A emoção não desapareceu.

Entretanto, surgiu uma diferença importante na maneira de se relacionar com ela.

Na literatura psicológica, processos como descentração, consciência metacognitiva e determinadas formas de atenção plena apresentam relações com essa capacidade de reconhecer experiências internas sem se identificar completamente com seu conteúdo.

Esses conceitos não são equivalentes, mas compartilham aspectos relevantes.

Na psicoterapia, podemos trabalhar gradualmente para ampliar a capacidade de perceber pensamentos, sensações e emoções como experiências que estão acontecendo, e não necessariamente como descrições completas da realidade.

Isso não significa assumir uma posição de observador permanentemente distante das próprias emoções.

Também não significa que toda pessoa consiga realizar esse movimento durante uma crise intensa.

O desenvolvimento dessa capacidade costuma exigir prática, condições de segurança e intervenções ajustadas às necessidades individuais.

Em alguns momentos, o primeiro objetivo pode ser simplesmente reconhecer que a ativação emocional está aumentando.

Posteriormente, a pessoa pode aprender a identificar sinais corporais, reconhecer pensamentos associados e utilizar recursos que favoreçam a recuperação da estabilidade.

Com o tempo, pode tornar-se possível ampliar o intervalo entre a experiência emocional e a resposta comportamental.

A transformação não consiste necessariamente em deixar de sentir medo, mas em desenvolver mais possibilidades de resposta quando o medo aparece.

Esse processo é especialmente relevante para pessoas que, durante grande parte da vida, experimentaram suas emoções como estados difíceis de compreender, tolerar ou regular.

7. O corpo participa da experiência emocional

As emoções não são acontecimentos exclusivamente mentais.

Elas envolvem alterações fisiológicas, tendências de ação, experiências subjetivas e processos cognitivos.

Durante uma resposta de ameaça, podem ocorrer mudanças na frequência cardíaca, na respiração, na tensão muscular e na atividade do sistema nervoso autônomo.

Essas respostas participam da preparação do organismo para lidar com situações consideradas relevantes.

Em pessoas expostas a adversidades prolongadas, pesquisadores investigam possíveis alterações em sistemas relacionados ao estresse, incluindo o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e mecanismos autonômicos.

Bruce McEwen contribuiu significativamente para essa discussão ao desenvolver o conceito de carga alostática, relacionado aos efeitos cumulativos dos processos de adaptação ao estresse.

Entretanto, não podemos concluir que toda pessoa com história traumática apresenta necessariamente uma desregulação fisiológica permanente.

As respostas ao estresse são heterogêneas, e os resultados dependem de múltiplos fatores.

Também precisamos diferenciar alterações fisiológicas mensuráveis de interpretações clínicas sobre o significado dessas alterações.

Uma pessoa pode experimentar tensão muscular persistente, hipervigilância ou desconforto corporal sem que seja possível atribuir automaticamente esses sintomas a uma experiência traumática específica.

Da mesma maneira, condições como dor crônica apresentam mecanismos complexos, que envolvem processos biológicos, psicológicos e sociais.

Reduzi-las a manifestações de emoções não elaboradas seria cientificamente inadequado e clinicamente problemático.

Ainda assim, reconhecer a participação do corpo nas experiências emocionais amplia nossa compreensão da psicoterapia.

A mudança psicológica pode envolver não apenas novas interpretações, mas também experiências de aprendizagem nas quais o indivíduo desenvolve maneiras diferentes de responder às próprias sensações corporais e aos estados de ativação.

A extensão dessas transformações e seus mecanismos fisiológicos específicos continuam sendo investigados.

8. Se compreender não é suficiente, como a psicoterapia pode produzir mudanças?

Essa pergunta nos conduz a uma distinção essencial.

Compreender a origem de uma dificuldade pode modificar a maneira como uma pessoa interpreta sua história.

Pode reduzir sentimentos de culpa, ampliar a autocompreensão e favorecer escolhas mais conscientes.

Esses efeitos possuem valor clínico.

Entretanto, determinadas respostas emocionais também precisam ser trabalhadas por meio de novas experiências e aprendizagens.

As intervenções psicoterapêuticas podem atuar sobre diferentes processos: interpretações cognitivas, padrões de evitação, respostas condicionadas, habilidades de regulação emocional e formas de relacionamento.

No tratamento do transtorno de estresse pós-traumático, por exemplo, abordagens psicoterapêuticas focadas no trauma apresentam evidências consistentes de eficácia.

Entre elas estão modalidades de terapia cognitivo-comportamental focada no trauma e a terapia de dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares, conhecida como EMDR.

Os mecanismos responsáveis pelos resultados terapêuticos são objeto de investigação, e diferentes intervenções podem envolver processos parcialmente distintos.

Um conceito importante nesse campo é a aprendizagem de extinção.

Em estudos experimentais, a extinção ocorre quando um estímulo anteriormente associado a uma consequência aversiva passa a ser apresentado sem essa consequência, permitindo novas aprendizagens.

Isso não significa necessariamente apagar a associação original.

Em determinadas condições, respostas previamente aprendidas podem reaparecer.

Essa observação ajuda a compreender por que a mudança emocional nem sempre ocorre de maneira linear.

Uma pessoa pode desenvolver novas formas de lidar com situações ameaçadoras e, ainda assim, experimentar reativações ocasionais de respostas anteriores.

Isso não significa necessariamente que todo o progresso terapêutico tenha sido perdido.

Também não devemos reduzir a psicoterapia a um processo de extinção do medo.

O tratamento envolve aspectos mais amplos, incluindo a relação terapêutica, a construção de significados, a ampliação da autonomia e o desenvolvimento de recursos emocionais e comportamentais.

Outro aspecto importante é reconhecer que intervenções eficazes não precisam produzir o desaparecimento completo das emoções difíceis.

Em muitos casos, a melhora envolve redução da frequência ou intensidade dos sintomas, diminuição da evitação, recuperação funcional e maior flexibilidade diante das experiências emocionais.

Essas mudanças podem representar transformações profundas na qualidade de vida.

9. O vínculo terapêutico e a possibilidade de novas experiências emocionais

Pessoas que cresceram em ambientes marcados por imprevisibilidade, negligência ou ameaças interpessoais podem desenvolver expectativas negativas sobre os relacionamentos.

Em determinadas situações, podem antecipar rejeição, crítica ou abandono mesmo quando não existem sinais claros de que isso acontecerá.

A psicoterapia oferece um contexto no qual essas expectativas podem ser reconhecidas, examinadas e, em algumas circunstâncias, confrontadas com experiências relacionais diferentes.

Uma relação terapêutica caracterizada por consistência, respeito, colaboração e atenção às necessidades do paciente pode contribuir para o desenvolvimento de segurança e confiança.

Entretanto, precisamos evitar afirmações excessivas.

Não seria adequado concluir que o vínculo terapêutico, por si só, modifica diretamente circuitos cerebrais específicos ou reverte todas as consequências fisiológicas de experiências traumáticas.

A aliança terapêutica apresenta associação consistente com os resultados da psicoterapia, mas essa associação não demonstra, isoladamente, quais mecanismos produzem a mudança.

Ainda assim, sua importância clínica é significativa.

Especialmente quando trabalhamos com pessoas que aprenderam a organizar suas relações em torno da antecipação de ameaças.

O espaço terapêutico pode permitir que determinados padrões sejam observados em condições diferentes daquelas nas quais foram desenvolvidos.

O paciente pode começar a perceber, por exemplo, que discordar não resulta necessariamente em rejeição.

Que expressar uma necessidade não implica obrigatoriamente perder o vínculo.

Ou que experimentar uma emoção intensa não significa que será incapaz de recuperar a estabilidade.

Essas experiências não precisam ser idealizadas.

O terapeuta não controla completamente a resposta emocional do paciente, e a relação terapêutica também pode envolver rupturas, frustrações e dificuldades.

O trabalho clínico inclui reconhecer e elaborar esses acontecimentos, respeitando o ritmo e as possibilidades individuais.

A construção de autonomia emocional não significa deixar de precisar das pessoas. Significa ampliar a capacidade de estabelecer relações sem depender exclusivamente de padrões de proteção construídos em contextos anteriores.

10. O que realmente significa transformar uma resposta emocional?

Existe uma expectativa bastante difundida de que a recuperação psicológica deveria produzir uma espécie de libertação definitiva das experiências anteriores.

Segundo essa perspectiva, uma pessoa que compreendeu e elaborou seu trauma deixaria de experimentar determinadas emoções, sensações ou dificuldades.

Entretanto, essa expectativa não corresponde necessariamente à maneira como a mudança psicológica acontece.

Aprendizagens anteriores podem continuar influenciando respostas emocionais mesmo depois de experiências terapêuticas significativas.

O que pode mudar é a intensidade dessas respostas, sua duração, a frequência com que aparecem e a maneira como a pessoa consegue lidar com elas.

Alguém que anteriormente permanecia vários dias mobilizado por uma crítica pode começar a recuperar sua estabilidade mais rapidamente.

Uma pessoa que evitava sistematicamente situações de conflito pode desenvolver maior capacidade para expressar discordâncias.

Outra, que reagia impulsivamente diante de sentimentos de rejeição, pode aprender a reconhecer a angústia antes de agir.

Essas transformações não devem ser consideradas pequenas apenas porque determinadas emoções continuam presentes.

Elas representam mudanças importantes na relação entre experiência emocional, comportamento e autonomia.

Na prática clínica, precisamos reconhecer que a evolução nem sempre é linear.

Existem períodos de maior estabilidade, momentos de intensificação dos sintomas e circunstâncias que podem reativar respostas anteriores.

Isso não significa que o paciente esteja escolhendo permanecer em sofrimento.

Também não significa que a persistência de sintomas seja necessariamente consequência de resistência psicológica ou de falta de comprometimento com o tratamento.

Os processos envolvidos na recuperação são complexos, e seus resultados variam consideravelmente.

A psicoterapia pode oferecer recursos importantes, mas não deve ser apresentada como uma garantia de eliminação completa das consequências de experiências traumáticas.

Considerações finais — O conhecimento é importante, mas a transformação envolve mais do que compreender

Compreender nossa história pode representar um momento fundamental no processo psicoterapêutico.

Reconhecer como determinadas experiências influenciaram nossas expectativas, nossos relacionamentos e nossas respostas emocionais pode ampliar significativamente a consciência sobre o próprio funcionamento.

Entretanto, o conhecimento não modifica automaticamente todas as aprendizagens construídas ao longo da vida.

O organismo humano não responde exclusivamente às conclusões que elaboramos racionalmente.

Ele também responde a associações, expectativas, experiências anteriores e processos fisiológicos que participam da organização das emoções.

Por isso, transformar uma resposta emocional pode exigir novas aprendizagens, experiências relacionais, desenvolvimento de habilidades e intervenções específicas.

Em algumas circunstâncias, a mudança começa quando a pessoa consegue reconhecer uma emoção antes de ser completamente mobilizada por ela.

Em outras, quando consegue recuperar a estabilidade mais rapidamente.

Ou quando passa a experimentar uma situação anteriormente evitada e descobre que dispõe de recursos para enfrentá-la.

Talvez uma das contribuições mais importantes da psicoterapia seja justamente ampliar essas possibilidades.

Não se trata de convencer o paciente de que suas emoções estão equivocadas.

Nem de exigir que compreenda suficientemente sua história para deixar de sofrer.

Trata-se de reconhecer que a experiência emocional humana envolve diferentes níveis de funcionamento e que a transformação pode acontecer progressivamente, por caminhos diversos.

Compreender o passado pode nos ajudar a reconhecer por que determinadas respostas existem. Mas transformar nossa relação com elas envolve também construir novas possibilidades de experiência no presente.

E essa compreensão nos conduz à próxima questão da nossa série:

O que acontece quando uma emoção se torna tão intensa que perdemos temporariamente a capacidade de observá-la e regulá-la?

Esse será o tema do terceiro artigo: Quando as emoções deixam de ser experiências e passam a dominar a vida.

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Dra. Daniela Ghorayeb — CRP 06/71744, Mestre e Doutora (PhD) em Saúde Mental — Unicamp
Psicologia Clínica — Ansiedade, Relacionamentos e Transtorno de Personalidade Borderline
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