Quando o passado continua acontecendo no corpo
Trauma, trauma complexo e as adaptações emocionais que podem permanecer muito depois do perigo.


Há pessoas que compreendem perfeitamente sua história.
Reconhecem as experiências difíceis que viveram, identificam padrões familiares e conseguem explicar, com impressionante clareza, por que determinadas situações despertam medo, ansiedade ou sofrimento.
Ainda assim, continuam reagindo emocionalmente como se estivessem diante de uma ameaça.
Uma crítica pode provocar uma sensação intensa de inadequação. Um conflito aparentemente simples pode desencadear angústia desproporcional. Uma situação de rejeição pode produzir reações físicas difíceis de controlar.
E surge uma pergunta:
Se a pessoa sabe que não está mais naquela situação, por que continua reagindo como se estivesse?
Essa questão nos aproxima de um dos campos mais importantes da psicologia contemporânea: a relação entre experiências traumáticas, desenvolvimento emocional, neurobiologia e regulação emocional.
Para compreender essa relação, precisamos começar por uma distinção fundamental.
Nem toda experiência dolorosa é traumática
Nos últimos anos, a palavra trauma passou a ocupar um espaço cada vez maior nas conversas sobre saúde mental.
Experiências de rejeição, dificuldades familiares, conflitos afetivos e frustrações frequentemente são descritas como traumáticas.
Entretanto, do ponto de vista científico, precisamos ter cuidado com essa ampliação do conceito.
Nem toda experiência emocionalmente dolorosa constitui um trauma psicológico.
O sofrimento faz parte da experiência humana. Situações difíceis podem provocar tristeza, medo, insegurança e mudanças comportamentais sem necessariamente produzir um transtorno relacionado ao trauma.
Além disso, uma experiência potencialmente traumática não determina, por si só, o desenvolvimento de psicopatologia.
A maneira como uma pessoa responde a uma experiência adversa depende de múltiplos fatores: características do acontecimento, história de desenvolvimento, condições de proteção, recursos psicológicos, relações interpessoais e circunstâncias posteriores.
Duas pessoas submetidas a acontecimentos semelhantes podem apresentar trajetórias emocionais bastante diferentes.
Isso não significa que uma seja mais forte do que a outra.
Significa que o sofrimento psicológico resulta de processos complexos, que não podem ser explicados exclusivamente pelo acontecimento vivido.
Também é importante distinguir a exposição a uma experiência traumática do desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático, conhecido como TEPT.
O TEPT é uma condição clínica definida por critérios diagnósticos específicos. Nem toda pessoa que vive uma experiência traumática desenvolve esse transtorno.
E nem todas as consequências psicológicas de experiências adversas se manifestam como TEPT.
Essa diferenciação é essencial para evitar tanto a banalização do conceito de trauma quanto a desconsideração de formas importantes de sofrimento emocional.
Trauma e trauma complexo: por que essa diferença importa?
Imagine duas situações.
Na primeira, uma pessoa sofre um acidente automobilístico grave. Durante alguns minutos, experimenta medo intenso e percebe sua vida ameaçada.
Depois do acontecimento, passa a apresentar lembranças intrusivas, evita dirigir e permanece em estado de alerta diante de situações associadas ao acidente.
Na segunda situação, uma criança cresce em um ambiente familiar marcado por ameaças recorrentes, humilhações, imprevisibilidade e ausência de proteção.
Durante anos, precisa observar cuidadosamente o comportamento dos adultos, antecipar conflitos e modificar suas próprias reações para tentar evitar situações ameaçadoras.
As duas experiências podem produzir consequências traumáticas.
Entretanto, apresentam diferenças importantes.
Na primeira, encontramos uma experiência potencialmente traumática delimitada no tempo.
Na segunda, observamos uma exposição prolongada a condições adversas, em um contexto relacional do qual a criança depende para sua sobrevivência e desenvolvimento.
É nesse segundo cenário que o conceito de trauma complexo se torna especialmente relevante.
O termo trauma complexo costuma ser utilizado para descrever experiências traumáticas repetidas ou prolongadas, frequentemente interpessoais e caracterizadas por dificuldades de escapar da situação.
Já o transtorno de estresse pós-traumático complexo (TEPT complexo) constitui uma categoria diagnóstica específica, reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças, a CID-11.
Além dos sintomas centrais do TEPT, o TEPT complexo envolve alterações persistentes em três dimensões:
* Dificuldades de regulação emocional.
* Autoimagem profundamente negativa, frequentemente acompanhada de vergonha, culpa ou sentimentos de desvalor.
* Dificuldades significativas nos relacionamentos interpessoais.
É importante destacar que o TEPT complexo não corresponde simplesmente a uma forma mais intensa de TEPT.
Ele apresenta características adicionais relacionadas à organização emocional e à percepção de si mesmo.
Também não podemos concluir que toda pessoa exposta a adversidades prolongadas desenvolverá TEPT complexo.
O diagnóstico exige avaliação clínica e a presença de critérios específicos.
Quando aquilo que protegeu começa a limitar
Uma criança que cresce em um ambiente imprevisível pode desenvolver grande sensibilidade às mudanças emocionais dos adultos.
Aprende a reconhecer pequenas alterações no tom de voz, nas expressões faciais e no comportamento das pessoas responsáveis por seus cuidados.
Essa capacidade pode representar uma adaptação importante.
Antecipar situações ameaçadoras pode ajudar a reduzir sua exposição ao perigo.
Entretanto, o desenvolvimento emocional não acontece de maneira isolada.
As experiências vividas participam da construção de expectativas sobre os relacionamentos, sobre a segurança do ambiente e sobre a própria capacidade de enfrentar situações difíceis.
Assim, uma resposta que teve uma função protetiva durante a infância pode continuar sendo utilizada em circunstâncias muito diferentes.
Na vida adulta, aquela pessoa pode permanecer excessivamente atenta às reações dos outros, interpretar sinais ambíguos como rejeição ou experimentar grande dificuldade para lidar com conflitos.
O que antes representava uma tentativa de proteção pode, posteriormente, transformar-se em uma fonte de sofrimento.
Essa compreensão modifica nossa maneira de olhar para determinados comportamentos.
Uma pessoa excessivamente vigilante não está necessariamente escolhendo viver em estado de alerta.
Alguém que apresenta dificuldade para confiar pode não estar simplesmente resistindo à intimidade.
E uma pessoa que reage intensamente a determinadas situações pode não conseguir modificar sua resposta apenas porque compreendeu racionalmente que ela é desproporcional.
Isso não significa atribuir todos esses comportamentos ao trauma.
Significa reconhecer que nossas respostas emocionais são influenciadas por processos de aprendizagem, desenvolvimento e adaptação.
O que a neurociência nos ajuda a compreender?
Nas últimas décadas, estudos sobre trauma e adversidade precoce investigaram possíveis relações entre experiências traumáticas e o funcionamento de sistemas cerebrais envolvidos na memória, na percepção de ameaças e na regulação emocional.
Pesquisas identificaram associações entre experiências adversas e diferenças no funcionamento de circuitos que envolvem estruturas como a amígdala, o hipocampo e regiões do córtex pré-frontal.
A amígdala participa de processos relacionados à identificação da relevância emocional dos estímulos, incluindo sinais de ameaça.
O hipocampo contribui para a organização contextual e temporal das memórias.
Regiões do córtex pré-frontal participam de processos de avaliação, controle cognitivo e regulação emocional.
Entretanto, seria incorreto afirmar que o trauma produz uma alteração cerebral única, previsível e igual em todas as pessoas.
As pesquisas apresentam resultados heterogêneos, influenciados pelo tipo de experiência traumática, pelo período do desenvolvimento, pela presença de sintomas e por diferentes características individuais.
Ainda assim, essas investigações oferecem contribuições importantes.
Uma delas é a compreensão de que experiências anteriores podem influenciar a maneira como interpretamos situações presentes.
Nosso organismo não responde exclusivamente às características objetivas de um acontecimento.
Ele também utiliza informações aprendidas anteriormente para antecipar possíveis consequências.
Em determinadas circunstâncias, isso pode contribuir para respostas de ameaça que parecem desproporcionais à situação atual.
Compreender não significa necessariamente conseguir regular
Imagine uma pessoa que cresceu em um ambiente marcado por críticas constantes.
Na vida adulta, durante uma reunião profissional, recebe uma observação relativamente simples sobre seu trabalho.
Racionalmente, compreende que não está sendo ameaçada.
Entretanto, percebe aceleração cardíaca, tensão muscular, dificuldade para organizar os pensamentos e uma sensação intensa de inadequação.
Sua resposta emocional parece incompatível com a situação presente.
O que pode estar acontecendo?
Diferentes processos participam da avaliação de uma experiência.
Alguns são rápidos, relativamente automáticos e influenciados por aprendizagens anteriores.
Outros envolvem reflexão consciente, contextualização e avaliação deliberada.
Esses processos interagem, mas nem sempre produzem respostas imediatamente convergentes.
Saber que uma situação é segura não garante que o organismo responda instantaneamente com uma sensação de segurança.
Essa diferença entre compreensão racional e resposta emocional constitui uma questão central para o estudo do trauma.
Também ajuda a explicar por que determinadas pessoas conseguem reconhecer a origem de suas dificuldades, mas continuam encontrando obstáculos para modificar suas reações.
Regulação emocional: muito além do controle das emoções
Quando falamos em regulação emocional, frequentemente imaginamos a capacidade de controlar sentimentos, evitar reações intensas ou permanecer tranquilos diante de situações difíceis.
Entretanto, a regulação emocional é um processo muito mais amplo.
James Gross, um dos principais pesquisadores da área, descreve a regulação emocional como o conjunto de processos pelos quais influenciamos quais emoções experimentamos, quando elas surgem e como são vivenciadas e expressas.
Regular emoções não significa necessariamente reduzi-las ou eliminá-las.
Em determinadas situações, uma emoção precisa ser reconhecida, tolerada ou expressa.
Em outras, pode ser necessário modificar a situação, redirecionar a atenção, reinterpretar uma experiência ou utilizar estratégias que contribuam para diminuir a ativação fisiológica.
Pessoas que passaram por experiências traumáticas podem apresentar dificuldades nesses processos.
Algumas experimentam emoções muito intensas e encontram dificuldade para recuperar a estabilidade.
Outras desenvolvem padrões persistentes de evitação, supressão emocional ou distanciamento afetivo.
Também existem pessoas que alternam entre estados de intensa ativação emocional e períodos de aparente desligamento.
Esses padrões não são exclusivos do trauma e não permitem, isoladamente, estabelecer um diagnóstico.
Mas podem constituir manifestações importantes quando aparecem associadas a experiências traumáticas.
O que significa mudar depois do trauma?
Uma das questões mais relevantes para a psicoterapia é compreender como respostas emocionais construídas ao longo do desenvolvimento podem ser modificadas.
E aqui precisamos abandonar uma expectativa frequentemente presente nas discussões sobre saúde mental: a ideia de que superar uma experiência traumática significa deixar de sentir qualquer consequência relacionada a ela.
O progresso terapêutico nem sempre acontece dessa maneira.
Às vezes, uma pessoa que anteriormente permanecia angustiada durante dias começa a recuperar sua estabilidade em algumas horas.
Alguém que reagia impulsivamente a uma sensação de rejeição passa a reconhecer a emoção antes de agir.
Uma pessoa que se sentia completamente dominada pelo medo começa a perceber que pode experimentar aquela emoção sem perder inteiramente sua capacidade de reflexão.
Essas mudanças são clinicamente significativas.
Elas representam o desenvolvimento de maior flexibilidade emocional e ampliação das possibilidades de resposta.
O objetivo da psicoterapia não precisa ser eliminar todas as emoções difíceis.
Pode ser ajudar o indivíduo a construir recursos para experimentá-las sem permanecer tão condicionado por padrões anteriores.
Isso exige reconhecer que a mudança emocional não depende exclusivamente de compreensão intelectual.
Aprendizagens emocionais, respostas fisiológicas e padrões comportamentais podem continuar sendo ativados mesmo quando a pessoa compreende racionalmente sua origem.
A psicoterapia pode contribuir para o desenvolvimento de novas aprendizagens e formas de regulação emocional.
Entretanto, os mecanismos envolvidos nessas transformações são complexos e continuam sendo investigados.
Não seria cientificamente adequado afirmar que a psicoterapia simplesmente apaga registros traumáticos do cérebro ou elimina todas as consequências fisiológicas de experiências adversas.
O que podemos afirmar é que existem intervenções psicoterapêuticas com evidências consistentes de eficácia para o tratamento de condições relacionadas ao trauma, especialmente o TEPT.
Também sabemos que o desenvolvimento humano permanece aberto a novas experiências e aprendizagens ao longo da vida.
Mas os resultados variam, e nem todas as consequências de experiências traumáticas respondem da mesma maneira às intervenções.
Reconhecer esses limites não diminui o valor da psicoterapia.
Ao contrário, permite compreender a transformação psicológica de maneira mais realista, cuidadosa e cientificamente fundamentada.
O passado influencia, mas não determina completamente o futuro
Compreender os efeitos do trauma não significa reduzir uma pessoa à sua história.
Essa talvez seja uma das distinções mais importantes.
As experiências adversas podem influenciar a maneira como percebemos ameaças, estabelecemos relacionamentos e regulamos nossas emoções.
Entretanto, não determinam de maneira absoluta quem nos tornaremos.
O desenvolvimento psicológico envolve processos contínuos de aprendizagem, adaptação e transformação.
Reconhecer as consequências de experiências traumáticas não significa considerar o indivíduo permanentemente aprisionado a elas.
Significa compreender que determinadas respostas podem ter sido construídas em circunstâncias nas quais eram necessárias ou adaptativas.
E que, em outros contextos, novas formas de responder podem ser desenvolvidas.
Talvez uma das contribuições mais importantes da psicoterapia seja justamente ampliar essa possibilidade.
Não se trata de negar o passado.
Nem de exigir que alguém deixe de sentir aquilo que sente.
Trata-se de construir, gradualmente, uma relação diferente com as próprias experiências.
O trauma pode influenciar a maneira como aprendemos a viver. Mas aquilo que aprendemos em condições de ameaça não precisa permanecer como nossa única forma possível de existir.
Referências científicas
Gross, J. J. (1998). The emerging field of emotion regulation: An integrative review. Review of General Psychology, 2(3), 271–299.
Herman, J. L. (1992). Trauma and Recovery. Basic Books.
McEwen, B. S. (1998). Protective and damaging effects of stress mediators. New England Journal of Medicine, 338, 171–179.
Teicher, M. H., & Samson, J. A. (2016). Annual Research Review: Enduring neurobiological effects of childhood abuse and neglect. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 57(3), 241–266.
World Health Organization. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11). Critérios diagnósticos de TEPT e TEPT complexo.
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Dra. Daniela Ghorayeb — CRP 06/71744, Mestre e Doutora (PhD) em Saúde Mental — Unicamp
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