Quando as emoções deixam de ser experiências e passam a dominar a vida

A neurobiologia da desregulação emocional e o desenvolvimento da capacidade de observar, compreender e responder às próprias emoções

TRAUMA, NEUROCIÊNCIA E REGULAÇÃO EMOCIONAL

Dra. Dani Ghorayeb

Quando sentir uma emoção significa perder temporariamente a capacidade de observá-la

Experimentar emoções intensas faz parte da experiência humana.

O medo, a tristeza, a raiva e a angústia desempenham funções importantes na adaptação às circunstâncias da vida. Essas emoções influenciam nossa atenção, nossas decisões, nossos relacionamentos e nossas respostas diante de situações relevantes.

Entretanto, existem momentos em que a intensidade da experiência emocional parece ultrapassar a capacidade de uma pessoa de compreender o que está acontecendo consigo mesma.

Uma crítica pode desencadear uma sensação avassaladora de inadequação. Um conflito interpessoal pode provocar angústia intensa, acompanhada da convicção de que uma relação está prestes a terminar. Uma situação de incerteza pode produzir um estado de ameaça tão significativo que outras possibilidades de interpretação parecem desaparecer.

Nessas circunstâncias, não estamos falando apenas de experimentar emoções desagradáveis.

Estamos diante de situações nas quais a experiência emocional passa a organizar grande parte da atenção, dos pensamentos, das interpretações e das respostas comportamentais.

A pessoa não necessariamente perde a consciência do que está acontecendo. Muitas vezes, consegue inclusive reconhecer que sua reação parece desproporcional à situação.

Ainda assim, encontra dificuldades para modificar aquilo que está sentindo ou para responder de maneira diferente.

Como explicar essa distância entre reconhecer uma emoção e conseguir regulá-la?

A resposta exige compreender que a regulação emocional não depende exclusivamente da vontade, da capacidade intelectual ou do conhecimento que uma pessoa possui sobre si mesma.

Ela envolve processos neurobiológicos, cognitivos, fisiológicos e relacionais que interagem continuamente.

Compreender esses mecanismos é particularmente importante na psicoterapia, especialmente no trabalho com pessoas que apresentam dificuldades persistentes de regulação emocional, tenham ou não vivenciado experiências traumáticas.

1. A emoção não é um obstáculo ao funcionamento psicológico

Durante muito tempo, diferentes tradições filosóficas e psicológicas contribuíram para a construção de uma oposição entre emoção e razão.

Nessa perspectiva, as emoções frequentemente aparecem como forças que precisam ser controladas para que o pensamento racional possa funcionar adequadamente.

Entretanto, os conhecimentos contemporâneos da psicologia e da neurociência apresentam uma compreensão mais complexa.

As emoções participam da avaliação de acontecimentos, da aprendizagem, da memória, da tomada de decisões e da organização do comportamento.

Elas não representam simplesmente interferências em um sistema cognitivo que funcionaria melhor sem sua presença.

Ao contrário, emoção e cognição constituem processos profundamente interdependentes.

James Gross, um dos principais pesquisadores contemporâneos da regulação emocional, descreve as emoções como processos que envolvem diferentes componentes, incluindo experiência subjetiva, comportamento e alterações fisiológicas.

Esses componentes não precisam apresentar correspondência perfeita entre si.

Uma pessoa pode experimentar medo intenso sem demonstrá-lo claramente. Pode apresentar alterações fisiológicas importantes sem conseguir identificar imediatamente a emoção associada. Ou pode reconhecer cognitivamente uma situação como ameaçadora sem experimentar uma resposta emocional proporcional.

Isso significa que não existe uma relação simples e linear entre pensamento, emoção e comportamento.

Também significa que regular emoções não corresponde necessariamente a reduzir sua intensidade.

Em determinadas situações, emoções intensas são adequadas e necessárias.

A indignação diante de uma injustiça, o medo diante de uma ameaça real e a tristeza relacionada a uma perda significativa não representam, por si mesmos, dificuldades de regulação emocional.

O problema clínico não está simplesmente na intensidade da emoção, mas na maneira como essa experiência interfere na flexibilidade, no funcionamento e nas possibilidades de resposta do indivíduo.

Essa distinção é fundamental para evitar que a psicoterapia transforme experiências emocionais legítimas em manifestações que precisam ser permanentemente corrigidas.

2. O que acontece no cérebro durante estados de elevada ativação emocional?

Quando uma pessoa percebe uma situação como ameaçadora, diferentes sistemas cerebrais e fisiológicos participam da organização de sua resposta.

Regiões relacionadas à avaliação da relevância emocional, à memória, à atenção e ao controle cognitivo interagem com mecanismos autonômicos e neuroendócrinos envolvidos na resposta ao estresse.

Entre as estruturas frequentemente investigadas estão a amígdala, o hipocampo e diferentes regiões do córtex pré-frontal.

A amígdala participa de processos relacionados à aprendizagem e à identificação da relevância emocional dos estímulos, particularmente em situações de ameaça.

O hipocampo contribui para a memória episódica e para o processamento de informações contextuais.

Regiões do córtex pré-frontal participam de funções executivas, avaliação de alternativas, manutenção de objetivos e diferentes formas de regulação emocional.

Entretanto, essas estruturas não devem ser compreendidas como sistemas independentes ou antagonistas.

Não existe um cérebro exclusivamente emocional que precisa ser dominado por outro exclusivamente racional.

O funcionamento emocional emerge da atividade coordenada de redes cerebrais distribuídas.

Pesquisas conduzidas por Amy Arnsten demonstraram que determinadas condições de estresse podem comprometer temporariamente funções associadas ao córtex pré-frontal, particularmente aquelas relacionadas à memória de trabalho e ao controle executivo.

Esses efeitos dependem de fatores como intensidade, duração e características da resposta ao estresse.

Também não ocorrem de maneira idêntica em todas as pessoas.

Em determinadas condições, o estresse pode favorecer respostas rápidas e relativamente automáticas, enquanto prejudica processos que exigem maior flexibilidade cognitiva.

Do ponto de vista clínico, isso ajuda a compreender um fenômeno bastante frequente.

Uma pessoa pode demonstrar excelente capacidade de reflexão durante uma sessão de psicoterapia e, algumas horas depois, diante de um conflito interpessoal, encontrar grande dificuldade para utilizar os mesmos recursos.

Isso não significa que o conhecimento adquirido tenha desaparecido.

Significa que a disponibilidade funcional de determinados recursos cognitivos pode variar conforme o estado emocional e as condições em que a pessoa se encontra.

Essa compreensão tem consequências importantes para a maneira como conduzimos intervenções psicoterapêuticas.

3. Quando a emoção ocupa o centro da experiência psicológica

Imagine uma pessoa que apresenta elevada sensibilidade à rejeição.

Durante uma conversa, alguém importante demonstra irritação.

A pessoa percebe essa alteração e experimenta uma sensação intensa de ameaça ao vínculo.

Sua atenção passa a se concentrar nos sinais de possível afastamento. Pequenos comportamentos são interpretados como evidências de rejeição. Os pensamentos tornam-se repetitivos e a necessidade de obter garantias sobre a relação aumenta.

Nesse momento, outras interpretações podem se tornar menos acessíveis.

A pessoa talvez não consiga considerar que a irritação do outro pode estar relacionada a acontecimentos independentes da relação.

Também pode apresentar dificuldade para tolerar a incerteza enquanto aguarda esclarecimentos.

A experiência emocional passa a exercer influência predominante sobre a interpretação da situação.

Esse fenômeno pode envolver diferentes processos psicológicos, como vieses atencionais, interpretações ameaçadoras, ruminação e dificuldades de regulação emocional.

É importante observar que não existe um único mecanismo responsável por todas essas manifestações.

Também não podemos presumir que toda sensibilidade à rejeição seja consequência de experiências traumáticas.

História de desenvolvimento, características temperamentais, aprendizagem, condições psicopatológicas e circunstâncias atuais podem participar de sua manifestação.

Entretanto, uma questão merece atenção especial.

Quanto mais intensamente uma pessoa se identifica com o conteúdo de seus pensamentos e emoções, mais difícil pode se tornar reconhecer outras possibilidades de interpretação e resposta.

Isso nos conduz a uma distinção importante entre experimentar uma emoção e relacionar-se com ela como se representasse uma descrição definitiva da realidade.

4. Sentir medo não significa necessariamente estar em perigo: o papel da descentração

Na literatura psicológica, o conceito de descentração refere-se, de maneira geral, à capacidade de reconhecer pensamentos e emoções como acontecimentos da experiência mental, sem necessariamente tomá-los como representações literais da realidade.

Considere duas situações.

Na primeira, uma pessoa experimenta medo intenso e conclui imediatamente:

“Estou com medo porque alguma coisa terrível vai acontecer.”

Na segunda, experimenta uma emoção semelhante, mas consegue reconhecer:

“Estou sentindo muito medo. Minha reação está intensa, mas preciso compreender melhor o que está acontecendo antes de concluir que existe uma ameaça.”

A diferença não está necessariamente na intensidade inicial do medo.

Está na relação que a pessoa estabelece com a própria experiência emocional.

Na primeira situação, a emoção é tomada como evidência suficiente para interpretar a realidade.

Na segunda, existe alguma possibilidade de reconhecer a emoção como uma experiência interna que precisa ser considerada, mas que não determina, isoladamente, a interpretação dos acontecimentos.

Esse processo está relacionado a diferentes conceitos investigados pela psicologia contemporânea, incluindo descentração, consciência metacognitiva e determinadas habilidades desenvolvidas em intervenções baseadas em mindfulness.

Embora apresentem aproximações, esses conceitos não são equivalentes.

A metacognição envolve processos de conhecimento, monitoramento e regulação da própria atividade cognitiva.

A descentração refere-se mais especificamente à possibilidade de modificar a relação estabelecida com pensamentos e emoções.

Já mindfulness compreende diferentes processos relacionados à atenção e à consciência da experiência presente, frequentemente associados a uma atitude de abertura e menor julgamento.

Essas distinções são relevantes porque evitam transformar diferentes tradições teóricas em explicações intercambiáveis.

Na prática clínica, entretanto, existe uma contribuição comum particularmente importante.

É possível desenvolver maneiras de reconhecer uma experiência emocional sem precisar responder automaticamente a todas as interpretações e impulsos que a acompanham.

Isso não significa desconsiderar as emoções.

Significa ampliar a possibilidade de examiná-las e responder a elas de maneira mais flexível.

5. A capacidade de observar uma emoção não está igualmente disponível em todos os momentos

Um equívoco frequente nas discussões sobre regulação emocional consiste em tratar a capacidade de observar pensamentos e emoções como uma habilidade que, depois de adquirida, permanece integralmente disponível.

Entretanto, o funcionamento psicológico apresenta variações importantes conforme as circunstâncias.

Uma pessoa pode reconhecer seus padrões emocionais, compreender suas vulnerabilidades e desenvolver recursos de regulação, mas ainda encontrar dificuldades para utilizá-los em determinadas situações.

Estados de estresse intenso, privação de sono, exaustão, dor, conflitos interpessoais e outras condições podem interferir na disponibilidade desses recursos.

Isso não significa necessariamente que a pessoa tenha perdido as habilidades desenvolvidas.

Significa que sua utilização depende também das condições em que precisa ser realizada.

Essa observação é particularmente importante para pacientes que apresentam experiências emocionais intensas e recorrentes.

Em alguns momentos, pedir que uma pessoa examine racionalmente seus pensamentos pode ser uma intervenção apropriada.

Em outros, a mesma solicitação pode exigir recursos que ela não consegue mobilizar naquele instante.

O terapeuta precisa considerar não apenas o conteúdo da experiência emocional, mas também o estado em que o paciente se encontra.

A intervenção clinicamente adequada não depende exclusivamente do que o paciente precisa aprender, mas também do que ele consegue realizar naquele momento.

Isso exige flexibilidade técnica, avaliação contínua e sensibilidade às condições individuais.

6. Por que compreender não basta durante uma crise emocional?

No artigo anterior, discutimos por que a compreensão racional de experiências passadas nem sempre modifica automaticamente respostas emocionais aprendidas.

Agora precisamos avançar nessa discussão.

Mesmo quando uma pessoa desenvolveu novas habilidades de regulação, sua capacidade de utilizá-las pode variar conforme a intensidade da experiência emocional.

Durante estados de elevada ativação, a atenção pode se concentrar em informações relacionadas à ameaça.

A memória de trabalho pode apresentar limitações.

A capacidade de considerar interpretações alternativas pode diminuir.

E respostas comportamentais anteriormente aprendidas podem tornar-se mais prováveis.

Isso ajuda a compreender por que determinadas intervenções cognitivas podem apresentar limitações durante crises emocionais intensas.

Não significa que a reestruturação cognitiva seja inadequada ou que intervenções cognitivas devam ser abandonadas.

Significa que sua aplicação precisa considerar o momento e as condições do paciente.

Em algumas circunstâncias, pode ser necessário priorizar intervenções que favoreçam a recuperação de um nível de estabilidade suficiente para que processos reflexivos mais elaborados possam ocorrer.

Essas intervenções podem incluir orientação para o momento presente, modificação de estímulos ambientais, estratégias de tolerância ao mal-estar, apoio interpessoal e recursos específicos de regulação emocional.

A escolha depende da avaliação clínica, das características do paciente e da natureza da situação.

Também é necessário reconhecer que nem todas as estratégias funcionam da mesma maneira para todas as pessoas.

Determinadas técnicas de atenção às sensações corporais, por exemplo, podem ser úteis em alguns contextos e desconfortáveis ou desorganizadoras em outros.

Por isso, não existe uma sequência universal de intervenções que possa ser aplicada indistintamente.

O objetivo inicial de uma intervenção durante uma crise nem sempre é produzir compreensão. Em determinadas situações, é recuperar condições para que a compreensão volte a ser possível.

Essa distinção pode modificar profundamente a condução da psicoterapia.

7. Marsha Linehan e a importância das habilidades de regulação emocional

A terapia comportamental dialética, desenvolvida por Marsha Linehan, oferece contribuições importantes para a compreensão e o tratamento de dificuldades intensas de regulação emocional.

Originalmente desenvolvida para pessoas com comportamentos suicidas crônicos e posteriormente estudada em diferentes populações clínicas, a DBT integra estratégias de aceitação e mudança.

Entre seus componentes estão o desenvolvimento de habilidades de mindfulness, tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal.

Uma de suas contribuições consiste em reconhecer que determinadas respostas emocionais e comportamentais precisam ser compreendidas em relação à história de aprendizagem e às condições atuais do indivíduo.

Isso não significa considerar todas as respostas inevitáveis ou impossíveis de modificar.

Significa reconhecer que mudanças comportamentais exigem condições de aprendizagem, prática e desenvolvimento de habilidades.

Na DBT, a validação da experiência emocional não equivale à concordância com todas as interpretações ou comportamentos do paciente.

Validar envolve reconhecer aspectos compreensíveis de sua experiência, considerando seu contexto e sua história.

Ao mesmo tempo, o tratamento pode trabalhar a construção de respostas alternativas quando determinados comportamentos produzem sofrimento ou prejuízos.

Essa integração é especialmente relevante para pacientes que desenvolveram uma relação marcada por autocrítica intensa diante das próprias dificuldades emocionais.

Quando a pessoa interpreta cada episódio de desregulação como uma demonstração de fracasso pessoal, pode acrescentar vergonha, culpa e desesperança à experiência original.

O trabalho psicoterapêutico precisa evitar que a própria regulação emocional se transforme em mais uma exigência de desempenho.

Desenvolver habilidades emocionais não significa assumir controle absoluto sobre aquilo que sentimos. Significa ampliar, gradualmente, nossas possibilidades de resposta.

8. Flexibilidade psicológica: uma alternativa ao ideal de controle emocional

A flexibilidade psicológica constitui um conceito central na terapia de aceitação e compromisso, desenvolvida a partir dos trabalhos de Steven Hayes e colaboradores.

De maneira geral, refere-se à capacidade de permanecer em contato com a experiência presente e modificar ou manter comportamentos de acordo com as demandas da situação e com valores pessoalmente relevantes.

Essa perspectiva questiona a ideia de que o funcionamento psicológico saudável depende da eliminação de pensamentos e emoções desagradáveis.

Uma pessoa pode experimentar medo e, ainda assim, realizar uma ação importante.

Pode sentir tristeza e continuar estabelecendo vínculos.

Pode reconhecer pensamentos autocríticos sem necessariamente organizar suas decisões em torno deles.

Isso não significa que a intensidade das emoções seja irrelevante.

Também não significa que todas as pessoas consigam agir de maneira flexível independentemente do grau de sofrimento.

A flexibilidade psicológica é influenciada por condições individuais e contextuais, e seu desenvolvimento pode exigir intervenções graduais.

Entretanto, o conceito oferece uma contribuição importante para a psicoterapia.

A mudança não precisa ser definida exclusivamente pela diminuição da intensidade emocional.

Também pode envolver a ampliação das possibilidades de comportamento diante de experiências internas difíceis.

Essa compreensão aproxima-se de uma questão clínica fundamental: a autonomia emocional.

Autonomia não significa independência absoluta das relações, ausência de vulnerabilidade ou capacidade permanente de autorregulação.

Significa desenvolver condições para reconhecer necessidades, estabelecer escolhas e responder às circunstâncias com maior flexibilidade.

Em determinadas situações, uma resposta emocionalmente autônoma pode envolver justamente reconhecer a necessidade de apoio.

A autonomia emocional não se mede pela capacidade de nunca precisar de alguém, mas pela ampliação das possibilidades de reconhecer, comunicar e responder às próprias necessidades.

9. O papel do vínculo terapêutico na regulação emocional

A psicoterapia não acontece apenas por meio da transmissão de informações ou do ensino de habilidades.

Ela se desenvolve em um contexto relacional.

A qualidade da aliança terapêutica apresenta associação consistente com os resultados do tratamento em diferentes modalidades de psicoterapia.

Entretanto, essa associação não significa que o vínculo, isoladamente, seja suficiente para produzir todas as mudanças necessárias.

Também não permite afirmar que uma relação terapêutica segura modifica diretamente estruturas cerebrais específicas.

Os mecanismos envolvidos na mudança psicoterapêutica são complexos e continuam sendo investigados.

Ainda assim, a dimensão relacional possui importância clínica significativa.

Para pessoas que apresentam dificuldades intensas de regulação emocional, a relação terapêutica pode oferecer oportunidades de reconhecer estados internos, comunicar necessidades e experimentar respostas interpessoais diferentes daquelas que antecipam.

Em determinadas circunstâncias, a presença de outra pessoa pode contribuir para a regulação emocional.

Esse fenômeno está relacionado ao campo de estudos sobre regulação interpessoal das emoções.

É importante, entretanto, evitar interpretações excessivamente simplificadas.

Nem toda interação interpessoal produz segurança.

Nem todo vínculo é regulador.

E a presença do terapeuta não substitui automaticamente o desenvolvimento de recursos próprios.

O trabalho clínico envolve reconhecer as condições nas quais o apoio interpessoal pode ser útil e, progressivamente, ampliar as possibilidades de regulação do paciente.

Isso inclui respeitar seus limites, suas necessidades e seu ritmo.

A autonomia não deve ser confundida com a obrigação de regular todas as emoções sem ajuda.

A capacidade de buscar apoio apropriado também pode representar um recurso importante de adaptação.

10. Como reconhecer mudanças clinicamente significativas?

Uma questão importante na avaliação dos resultados psicoterapêuticos diz respeito aos critérios utilizados para reconhecer a melhora.

Frequentemente, pacientes chegam ao tratamento esperando deixar de experimentar determinadas emoções.

Desejam não sentir mais medo, não experimentar angústia diante de conflitos ou não apresentar reações intensas em situações que anteriormente produziram sofrimento.

Essas expectativas são compreensíveis.

Entretanto, a recuperação psicológica nem sempre corresponde ao desaparecimento completo das experiências emocionais difíceis.

Em muitos casos, mudanças importantes aparecem de outras maneiras.

Uma pessoa que anteriormente permanecia vários dias mobilizada por um conflito pode começar a recuperar sua estabilidade em períodos mais curtos.

Outra pode continuar experimentando medo de rejeição, mas desenvolver maior capacidade de comunicar suas necessidades sem recorrer imediatamente a comportamentos impulsivos.

Uma terceira pode aprender a reconhecer sinais iniciais de desregulação e utilizar recursos antes que a intensidade emocional aumente significativamente.

Essas mudanças não são necessariamente pequenas.

Podem representar transformações importantes no funcionamento cotidiano, na qualidade dos relacionamentos e na autonomia.

Também é necessário considerar que a melhora não ocorre de maneira linear.

Situações de estresse, perdas, adoecimento e outras circunstâncias podem intensificar temporariamente dificuldades anteriormente reduzidas.

Isso não significa, por si só, que o tratamento tenha fracassado.

Da mesma maneira, a persistência de sintomas não deve ser interpretada automaticamente como falta de comprometimento ou resistência do paciente.

A avaliação clínica precisa considerar a frequência, a duração e a intensidade das dificuldades, mas também seu impacto funcional e as possibilidades de resposta disponíveis.

Uma mudança terapêutica significativa pode acontecer quando a emoção continua existindo, mas deixa de determinar, de maneira tão rígida, aquilo que a pessoa consegue fazer com a própria vida.

11. O risco de transformar a regulação emocional em uma obrigação

Existe uma questão ética que merece atenção especial.

À medida que conceitos como autorregulação, inteligência emocional e mindfulness se tornam mais conhecidos, também aumenta o risco de serem apresentados como competências que todos deveriam dominar permanentemente.

Nessa perspectiva, experimentar emoções intensas pode passar a ser interpretado como incapacidade de administrar a própria vida emocional.

Entretanto, essa interpretação desconsidera aspectos fundamentais do funcionamento humano.

A capacidade de regulação emocional é influenciada por condições de desenvolvimento, experiências anteriores, recursos individuais, características do ambiente e circunstâncias atuais.

Além disso, nem todas as emoções difíceis representam respostas inadequadas.

Existem situações em que a tristeza, a raiva ou o medo são compreensíveis diante das condições vividas.

Também existem contextos nos quais o sofrimento emocional está relacionado a problemas que não podem ser resolvidos exclusivamente por estratégias individuais de regulação.

Relações abusivas, condições persistentes de insegurança, perdas significativas e adversidades sociais exigem uma compreensão que ultrapasse a responsabilidade individual.

Por isso, a psicoterapia precisa evitar transformar o desenvolvimento de habilidades emocionais em uma exigência de adaptação indiscriminada a qualquer circunstância.

Regular emoções não significa aprender a tolerar indefinidamente situações prejudiciais.

Em determinados contextos, uma resposta adaptativa pode envolver estabelecer limites, modificar relações, buscar proteção ou reconhecer que determinadas condições precisam mudar.

O objetivo da psicoterapia não é produzir indivíduos capazes de suportar qualquer sofrimento sem reagir, mas ampliar suas possibilidades de compreender, escolher e agir diante das circunstâncias da vida.

Considerações finais — Entre sentir e responder, existe uma capacidade que pode ser desenvolvida

A experiência emocional humana envolve processos complexos que não estão inteiramente submetidos ao controle consciente.

Em determinadas circunstâncias, emoções intensas podem comprometer temporariamente a capacidade de reflexão, restringir a atenção e favorecer respostas comportamentais anteriormente aprendidas.

Isso não significa que a pessoa esteja escolhendo permanecer desregulada.

Também não significa que suas possibilidades de mudança estejam definitivamente limitadas.

A psicoterapia pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades de reconhecimento emocional, descentração, tolerância ao mal-estar e flexibilidade psicológica.

Entretanto, essas capacidades não devem ser compreendidas como recursos que permanecem igualmente disponíveis em todas as circunstâncias.

Seu desenvolvimento exige aprendizagem, prática, condições adequadas e intervenções ajustadas às necessidades individuais.

Também precisamos reconhecer que a mudança não depende exclusivamente do paciente.

As relações, os contextos de vida e as condições de segurança participam significativamente das possibilidades de regulação emocional.

Talvez uma das transformações mais importantes do processo psicoterapêutico seja justamente ampliar a capacidade de reconhecer uma emoção sem precisar organizar toda a experiência em torno dela.

Isso não significa deixar de sentir.

Significa construir, progressivamente, outras possibilidades de resposta.

A autonomia emocional não consiste em controlar tudo o que sentimos, mas em desenvolver maior liberdade para escolher como responder, dentro das possibilidades reais de cada momento.

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Dra. Daniela Ghorayeb — CRP 06/71744, Mestre e Doutora (PhD) em Saúde Mental — Unicamp
Psicologia Clínica — Ansiedade, Relacionamentos e Transtorno de Personalidade Borderline
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